Táxi.

Tenho vergonha de estender o braço
para chamar o táxi
tenho medo que ele me veja
tenho medo que ele me veja
e ainda assim
não pare.

Ana Cristina César

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Até você perceber que é assim.

A morte de Sandman

Eu tenho uma teoria.

Na verdade eu tenho um monte de teorias. Sou uma fábrica de teorias. Esta é a mais nova.

A de que todas as coisas sensatas, tudo que se pode saber, tudo aquilo que conta como sabedoria de verdade, tudinho mesmo, não passa de besteira, obviedades e cretinices.

Ou pelo menos parece, até você perceber que é assim.

Veja os clichês, por exemplo.

Acho que cada vez gosto mais de clichês.

“Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida”. É uma frase boba, mas nem por isso menos verdadeira.

E todo esse papo de amor.

 

Da HQ de Neil Gaiman, Morte – O grande momento da vida, pg. 22 (Abril).

Descanso.

Não tenho paciência para ouvir os outros, não tenho paciência para viver, não tenho paciência para morrer, estou aqui, parada, num desequilíbrio interminável, nunca mais acabo de cair, irrito-me se me falam, sofro se me não dizem nada, odeio o gesto caridoso: a mão de alguém nos meus cabelos, o que eu quero é uma voz que me queira, um momento de descanso nessa voz.

Rui Nunes, em Grito.

Deixa ela entrar.

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A associação do vampirismo com uma idéia de heroísmo e maldição não é nova no cinema, mas o filme sueco Deixa Ela Entrar (Låt den Rätte Komma In, 2008) consegue renovar o gênero – e conquistar fãs em festivais mundo afora – por fazer dessa maldição uma metáfora das dificuldades da adolescência.

Primeiro conhecemos Oskar (Kåre Hedebrant), garoto de 12 anos, cansado de ser saco de pancada na escola, que treina seu revide sozinho no quarto, com uma faca. Quem parece um vampiro aqui é ele: loiro, retraído, branco quase albino, com sangue nos olhos e, descobriremos depois, até uma tendência para o masoquismo. Mas Oskar é só um garoto normal.

Até o dia em que ele conhece Eli (Lina Leandersson), garota que acabou de se mudar para o prédio de Oskar e que chama atenção pela janela do quarto, tapada com papelão. Como Oskar, Eli não é muito de socializar. E ela também tem 12 anos, só que há muito mais tempo. Acabam ficando amigos, no jardim coberto de neve diante do prédio, à noite.

A relação clássica do gênero pressupõe um vampiro secular, ciente do fardo que carrega, e um humano, que, na sua breve e ignorante existência, inveja o poder do outro. É evidente que, ao descobrir que Eli é uma vampira, Oskar não se afastará – pelo contrário. Os acontecimentos seguintes são aqueles que, nesta história de formação, definirão quem Oskar realmente é.

Há toda uma tradição envolvendo o gênero, e o diretor Tomas Alfredson se livra um pouco dessa carga com uma dose de ironia. O pai de Eli só toma leite, o gordo que testemunha os crimes é criador de gatos, o blusão que Oskar veste na casa do pai parece uma capa vermelha de Drácula… Ao adicionar em seu filme realista uma dose de caricatura, Alfredson se permite não levar-se a sério demais.

E cria-se então espaço para fazer um pequeno grande filme. Alfredson tem grande apuro estético no uso do scope – a proporção 2,35:1 de tela é ideal para as paisagens suecas – e à atmosfera gelada adiciona-se um senso de economia na hora de mostrar a vampira em ação. É suspense, enfim, que o diretor procura, e espalhar aos poucos as imagens de terror (como o rosto desfigurado ou a combustão) amplia e valoriza esse suspense.

Deixa Ela Entrar tem seus didatismos – como contaminar a mulher mais velha para mostrar como Eli é heróica na sua luta interior – mas no final prevalecem a bela construção da relação dos dois garotos e as analogias com a adolescência normal (como o complexo de Electra de Eli levado às últimas consequências). Se você é fã de Crespúsculo, em particular, ou de filmes de vampiros, de modo geral, não deixe de assistir.

[omelete]

O piscar de um vagalume.

Se os 4 bilhões de anos em que a vida esteve na Terra fossem resumidos num dia de verão, então os últimos 200 mil anos – que testemunharam a ascensão de humanos anatomicamente modernos, a origem das linguagens complexas, da arte, da religião, do comércio, a aurora da agricultura, das cidades e de toda a história escrita – se encaixariam no piscar de um vagalume, pouco antes do pôr-do-sol.

Carl Zimmer, O livro de ouro da evolução – o triunfo de uma idéia. (Ediouro, pg. 126)