Dúvidas.

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Todos os dias necessito minha ração de dúvida. Me alimenta, literalmente. Nunca houve um ceticismo mais orgânico. E, sem dúvida, todas as minhas reações são as de um histérico. Dá-me dúvidas e mais dúvidas. São – mais que meu alimento – minha droga. Não posso prescindir delas. Estou intoxicado com elas para toda a vida. De modo que quando encontro uma, a que seja, me precipito sobre ela, a devoro, a incorporo na minha substância. Pois minha capacidade para assimilá-las – as dúvidas – é ilimitada; as digiro todas, são minha substância e minha razão de ser. Não posso imaginar-me sem elas. Dá-me dúvidas, mais e mais dúvidas.

E. M. Cioran, Cuadernos (1957-1972), pg. 100-1 (Tusquet Editores)

Despedida.

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Eu deixarei o mundo com fúria
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão profundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

Ferreira Gullar, Toda Poesia, pg. 320 (José Olympio)

A felicidade é um estado.

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A felicidade é um estado. Isso quer dizer uma maneira de ser que consiste em ser por nada senão por ser e em encontrar nessa maneira de ser assim gratuitamente uma forma de plenitude. Em virtude disso, a felicidade não está nas coisas nem é alguma coisa. Ela também não está em alguém nem é alguém, mas está na maneira pela qual se vivem as coisas e os outros. Tudo pode, portanto, tornar-se ocasião de felicidade. Todo mundo igualmente. Por menos que se faça não só um esforço para ser, mas também e sobretudo o esforço de ser. Donde a extraordinária liberdade da felicidade. Sua extraordinária capacidade igualmente de poder transformar tudo.

Bertrand Vergerly, O Sofrimento, p. 129 (EDUSC)

“Relacionamento puro”, A. Giddens

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O “relacionamento puro” tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, na qual se entra “pelo que cada um pode ganhar” e se “continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação”.

Zigmunt Bauman, Amor líquido, sobre a fragilidade dos laços humanos, p. 111 (Jorge Zahar)