A índole do tempo é difícil.

A índole do tempo é difícil. Ele é mais pálido que o irmão, o espaço, mais irriquieto, mais misterioso, mais difícil de penetrar, de julgar e de conhecer. Mais inteligente também. E menos confiável. É personagem cruel, nervoso, volúvel, propenso ao paradoxo, de instabilidade doentia. Dele se pode dizer que dorme com um olho aberto, está sempre com um pé atrás ou fora e não perde oportunidade de deixar a companhia e ir-se porque se entediou. Confiar nele é loucura a que muitos se deixam levar.

Esse indivíduo instável, tão pouco digno de confiança, sexualmente mal resolvido, dado a todos os vícios e a todas as drogas, é sedutor profissional. Noite adentro, com luz de velas, conta histórias maravilhosas em que o amor se mescla à guerra, as quais o mais das vezes terminam mal. Diferentemente do irmão, transbordante de saúde, um tanto corado, sempre criança, pode-se dizer que o tempo não tem idade. Ele chega, aqui ou ali, a dar cambalhotas como um jovem. De súbito está muito velho. É capaz, contudo, de seduzir quem ele queira. E não se priva desse dom. Dons, ademais, não lhe faltam – tem todos. Usa-os, abusa-os. Não pára de elaborar projetos e de construir magníficos castelos no ar, destinados a desaparecer. O cúmulo é que chega a tomar verdadeiramente o poder, a fazer verdadeiramente fortuna e a conhecer o verdadeiro amor. É tão imprevisível, que dele sequer é possível desconfiar completamente.

Ele não é bom de amar. Tem um fraco pela morte, pelos fins trágicos, pelas paixões que sucubem e pelas demoradas ruínas. Pergunta-mo-nos por vezes se não está possuído pelo mal. Esse rapaz tão sedutor, que se confunde com o entusiasmo e com a esperança, tem um lado demoníaco. Por suas terras, tão imensas, também elas, que não se lhes vê o fim, nunca se passa duas vezes. Ele convida uma vez, com muito encanto e satisfação. A primeira estada, todavia, também é a última. Que não se acalente a esperança de voltar: “A meus domínios”, declara ele com odiosa soberba, “não se volta jamais”.

Pode-se suspeitar que o tempo seja dotado de poder algo secreto, insidioso, desmedido. Ele vangloria-se com muito gosto, e talvez sem falsidade, de dominar a todos os que têm a sorte ou o azar – como saber com ele? – de cair em seus domínios. Atribuem-se-lhe crimes inomináveis. Mas também muitos êxitos. Ele é quase sempre sombrio e sinistro, mas também sabe ser alegre e jovial. Transborda de idéias, de receitas, de lembranças, de histórias arrepiantes e de contos de fadas para as crianças. Todos os que têm projetos, empreendimentos, esperanças, bem como temores, procuram-no para que os auxilie. É fabricante de sonhos, doador de conselhos, emprestador também, e ilusionista, e agitador. É tão contraditório, que uns afirmam que ele os entedia e lhes provoca bocejos, enquanto outros o vêem, ao contrário, como animador prodigioso, mercador de ilusões e armadilhas, lanterna da noite e luz da esperança, professor de energia, mestre em quase todas as coisas. Profeta e mentor. Ninguém é mais misterioso. Nada mais enigmático. Nada mais fascinante.

Jean d’Ormesson, Quase nada sobre quase tudo (Record, pg. 32, ligeiramente adaptado)

Sofro, Lídia, do medo do destino.

Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena coisa de onde pode
Brotar uma nova ordem em minha vida,
Lídia, me aterra.

Qualquer coisa, qual seja, que transforme
Meu plano curso da existência, embora
Para melhores coisas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os Deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até o fim.

A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa ‘stima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.

26-5-1917
Ricardo Reis

Texto crítico das Odes de Fernando Pessoa/Ricardo Reis, Imprensa Nacional, Casa da Moeda pg. 168, de Silva Bélkior.