Não houve início, não há fim.

A manhã está fria e cinzenta de tão vazia,
ninguém me vê

no mar tão macio, tão pequeno ao meu redor e
tão cheio de mim,

espero as horas que chegam, e partem, e voltam
parecem-me mulheres perdidas, desamadas, loucas,
cheias de silêncio levando as marés,

não ficam, não vou

ninguém é meu, ou minha,
não há histórias, não há memórias, não há cheiros,
não há canções, não há paredes manchadas, nem roupas estragadas,
não há flores no jardim, não há passos junto à porta,
não houve início, não há fim,
não há cama para fazer, nem mesa,
nem janela para abrir, nem livro pra fechar,

há um vazio
que não é possível,

um desejo
que não cresce

há uma dor
que não mata

Alma Kodiak

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Quero saber o que desejas ardentemente.

Não me interessa saber o que fazes para ganhar a vida. Quero saber o que desejas ardentemente, se ousas sonhar em atender aquilo pelo qual o teu coração anseia. Não me interessa saber a tua idade. Quero saber se arriscarás parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com a tua lua. Quero saber se tocaste o âmago da tua dor, se as traições da vida te abriram ou se te tornaste murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se podes suportar a dor, minha ou tua; sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se podes aceitar alegria, minha ou tua, se podes dançar com abandono e deixar que o êxtase te domine até às pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizeres para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que contas é verdade. Quero saber se consegues desapontar outra pessoa para ser autêntico contigo mesmo, se podes suportar a acusação de traição e não traíres a tua alma.

Quero saber se podes ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se podes buscar a origem da tua vida na presença de Deus, quero saber se podes viver com o fracasso, teu e meu e ainda, à margem de um lago, gritar para a lua prateada: Posso! Não me interessa onde moras ou quanto dinheiro tens. Quero saber se podes levantar-te após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até aos ossos, e fazer o que tem de ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem és e como vieste parar aqui. Quero saber se ficarás comigo no meio do incêndio e não te acovardarás. Não me interessa saber onde, o quê, ou com quem estudaste. Quero saber o que te sustenta a partir de dentro, quando tudo o mais se desmorona. Quero saber se consegues ficar sozinho contigo mesmo e se, realmente, gostas da companhia que tens nos momentos vazios.

Jean Houston

Achava.

– Não há nada de errado com sua vida. Apenas sente pena de si mesma. Um de seus grandes prazeres.
– E não é um dos seus? Você é tão patético quanto eu. Não sinto prazer em ter pena de mim!
– Nem eu! Não gosto nem um pouco.
– Você tem todas as respostas.
– Não, eu não tenho nenhuma.
– Já que é esperto, por que não dá uma reviravolta em sua vida? Por que não aceita o cargo em Stanford? Por que ficar numa pequena escola se pode ter o cargo que quiser?
– Acho que o que fiz valeu a pena.

A Single Man (2009)

Merda nenhuma.

[cena do filme “Barfly”, com Mickey Rourke e Faye Dunaway]

“Ela tinha um tipo de sensibilidade estranha e doida de quem sabia de algo mais, e esse algo era que a maioria dos seres humanos não vale merda nenhuma. Eu sentia isso e ela também.” – Charles Bukowski sobre uma das pessoas decisivas na sua vida e seu primeiro relacionamento sério, Jane Baker.

Marxismo.

Um operário que precisa trabalhar não é igual ao empregador que o contrata. Há entre eles uma desigualdade que faz com que o primeiro, movido pela necessidade, seja obrigado a submeter-se às condições fixadas pelo segundo. Donde uma situação benéfica ao segundo e prejudicial ao primeiro, tendo, como chave, um dano ocasionado ao primeiro escondido pela idealidade do contrato e da troca. Convém por isso ser lúcido.

Bertrand Vergerly, O Sofrimento, p. 111 (EDUSC)