O único no mundo

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– Faz muito frio pra você, aqui fora?
– Nao, leve-me por favor até o centro da praça….De noite, no sonho, vimos uma árvore como aquela lá, aquela perto do centro.
– Vimos?
– Sim. Você, e eu, e todos. Estava bem à vista.
– Que sonho era?
– O sonho da noite.
– Que queres dizer com isso?
– A gente tem um sonho, todas as noites. E as vezes mais de um, não é assim?
– Sim.
– E no sonho da noite havia uma árvore como essa, e um dos galhos estava carregado de frutas. Mas não mais do que um galho.
– Escute, senhor Ramirez, a gente tem sonhos enquanto dorme. Mas cada um sonha sozinho. É coisa particular, privada.
– Mas você não viu essa árvore de noite, a de galho diferente?
– Não, não a vi.
– Todas as pessoas a viram.
– Ninguém a viu. Você sozinho a viu. O único no mundo.
– Por que?
– Porque é assim. Quando se sonha se está completamente sozinho.

Maldición Eterna a Quien Lea Estas Páginas,
Manuel Puig, escritor argentino

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Minha Verdade

“Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é a minha parte maior e melhor: é minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que eu não sei é que constitui a minha verdade”

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Clarice Lispector

Palavras

“A cada momento vão aparecer palavras novas e quanto mais palavras eu ficar conhecendo, mais perguntas vou ter para fazer, maior vai ser o meu mundo…”

Menino Quadradinho [1993: p.26], personagem do cartunista mineiro Ziraldo

Idílico

Meu pai nasceu num lugarejo chamado Vila da Glória. Lá ele corria entre pastos enormes e extensas faixas de areia cor de chumbo. Vejo o menino correndo de calção puído e uma bola improvisada nos pés, o vento agridoce nos cabelos muito negros. Vejo o menino subindo nas goiabeiras e saltando no mar. O menino nadando pra longe, tão distante quanto este passado idílico que quase toco com a imaginação ligeira. O menino no meio do mato segurando uma funda, a mão coçando com a picada distraída dos mosquitos, os pés ora pisando vegetação rasteira, ora areia vinda de muito longe, e um bando de passarinhos fugindo entre a copa dos araçás. Vejo o menino sentado sobre a casca de uma árvore caída inteira e o olhar abandonado nas luzes de uma cidade vizinha, do outro lado do cais, tão longe, tão perto, repetindo solitariamente o sentimento de gerações inteiras. O menino que viu tempestades se formando no alto-mar, coração sereno. O menino que fugiu pra nunca mais, esperando do mundo um mundo ainda maior. O menino sem imaginação. Um menino só, parado no tempo, feito um menino. Entre os costões verdejantes e o mar luminoso ele envelhecia rapidamente sem atinar que no incógnito futuro um outro menino o procurava entre palavras e papéis, apesar do tempo irrecuperável.

 

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“Boy Running”, Pamela Murphy

A Queda

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Conheci um homem que deu vinte anos de sua vida a uma desmiolada, por quem tudo sacrificou, as amizades, o trabalho, a própria decência de sua vida, para uma noite reconhecer que nunca a havia amado. Ele se entediava, nada mais; entediava-se como a maior parte das pessoas. Tinha construído, peça por peça, uma vida de complicações e de dramas. É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte.

Albert Camus, A Queda

A arte de Ensinar

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Um dos grandes benefícios de ensinar é o sentimento de auto-aperfeiçoamento, de aproveitar o amadurecimento. É sempre possível fazer melhor da próxima vez.

Então, Deus seja louvado pelos períodos acadêmicos, com o seu interminável suprimento de novos começos.

Jay Parini, A Arte de Ensinar (Civilização Brasileira, 2007)