Tão cúmplices, as palavras

Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.

Graça Pires

Do excelente Rua das Pretas

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“Tanto amor e nada poder contra a morte!”

No fim da batalha,
morto o combatente, apareceu-lhe um homem
dizendo: “Não morras, amo-te tanto!”
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Então vieram dois e repetiram:
“Não nos deixes, coragem, volta para a vida!”
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Acudiram então vinte, cem, mil, quinhentos mil,
clamando: “Tanto amor e nada poder contra a morte!”
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Então rodearam-no todos os homens da terra;
olhou-os o cadáver triste, emocionado;
pôs-se em pé lentamente,
abraçou o primeiro homem; e pôs-se a andar…

César Vallejo

Solilóquio do indivíduo.

Eu sou o Indivíduo.
Primeiro vivi numa rocha
(Aí gravei algumas figuras).
Logo busquei um lugar mais apropriado.
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro tive que procurar alimentos,
Buscar peixes, pássaros, buscar lenha
(Preocupar-me-ia depois com os outros assuntos).
Fazer uma fogueira,
Lenha, lenha, aonde encontrar um pouco de lenha,
Muita lenha para fazer uma fogueira.
Eu sou o Indivíduo.
Ao mesmo tempo que me perguntava,
Fui a um abismo cheio de ar;
Respondeu-me uma voz:
Eu sou o Indivíduo.
Tratei então de mudar-me para outra rocha,
Onde também gravei figuras,
Gravei um rio, búfalos,
Gravei uma serpente,
Eu sou o Indivíduo.
Mas não. Aborreci-me das coisas que fazia,
O fogo enfadava-me,
Queria ver mais,
Eu sou o Indivíduo.
Desci a um vale regado por um rio,
Ali encontrei o que necessitava,
Encontrei um povo selvagem,
Uma tribo,
Eu sou o Indivíduo.
Vi que ali se faziam algumas coisas,
Gravavam figuras nas rochas,
Faziam fogo, também faziam fogo!,
Eu sou o Indivíduo.
Perguntaram-me de onde vinha eu.
Respondi que sim, que não tinha planos determinados,
Respondi que não, que daí em diante.
Bem.
Peguei então num pedaço de pedra que encontrei num rio
E comecei a trabalhá-la,
Comecei a poli-la,
Dela fiz uma parte da minha própria vida.
Mas isto é demasiado extenso.
Cortei umas árvores para navegar,
Buscava peixes,
Buscava coisas diferentes
(Eu sou o Indivíduo).
Até que comecei a aborrecer-me novamente.
As tempestades aborrecem,
As trovoadas, os relâmpagos,
Eu sou o Indivíduo.
Bem. Pus-me a pensar um pouco,
Vinham-me perguntas estúpidas à cabeça,
Falsos problemas.
Comecei então a vaguear pelos bosques.
Cheguei a uma árvore e a outra árvore,
Cheguei a uma fonte,
A uma foça onde se viam alguns ratos:
Aqui estou eu, disse então,
Haveis visto uma tribo por aqui,
Um povo selvagem que faz fogo?
Deste modo, desloquei-me para Oeste
Acompanhado por outros seres,
Ou ainda mais só.
Para ver há que crer, diziam-me,
Eu sou o Indivíduo.
Via formas nas obscuridade,
Talvez nuvens,
Via talvez nuvens, via relâmpagos;
Sobre tudo isto tinham passado já vários dias,
Eu sentia-me morrer;
Inventei umas máquinas,
Construí relógios,
Armas, veículos,
Eu sou o Indivíduo.
Já só tinha tempo para enterrar os meus mortos,
Já só tinha tempo para semear,
Eu sou o Indivíduo.
Anos mais tarde concebi umas coisas,
Uns moldes,
Cruzei as fronteiras
E permaneci fixo numa espécie de nicho,
Num barco que navegou quarenta dias,
Quarenta noites,
Eu sou o Indivíduo.
Logo vieram umas secas,
Vieram umas guerras,
Tipos de cor entraram no vale,
Mas eu devia seguir em frente,
Devia produzir.
Produzi ciência, verdades imutáveis,
Produzi tânagras,
Dei à luz livros de mil páginas,
Inchou-se-me a cara,
Construí um fonógrafo,
A máquina de costura,
Começaram a aparecer os primeiros automóveis,
Eu sou o Indivíduo.
Alguém segregava planetas,
Segregava árvores!,
Mas eu segregava ferramentas,
Móveis, material de escritório,
Eu sou o Indivíduo.
Também se construíram cidades,
Rotas,
Instituições religiosas passaram de moda,
Buscavam ventura, buscavam felicidade,
Eu sou o Indivíduo.
Depois dediquei-me mais a viajar,
A praticar, a praticar idiomas,
Idiomas,
Eu sou o Indivíduo.
Olhei pela fechadura,
Sim, olhei, que digo eu, olhei,
Para tirar dúvidas olhei,
Detrás de umas cortinas,
Eu sou o Indivíduo.
Bem.
Talvez seja melhor voltar àquele vale,
Àquela rocha que me serviu de lar,
E começar a gravar de novo,
A gravar de trás para a frente
O mundo do avesso.
Mas não: a vida não tem sentido.

Nicanor Parra, de “Poemas y Antipoemas” (1954).
Versão de HMBF.

À imemorial noite povoada.

“Aceito mal o que em arte se designa por inovador. Deverá uma obra ser entendida pelas gerações futuras? Porquê? Que quererá isto dizer? Que elas poderão utilizá-la? Em quê? Não vejo bem. Já vejo melhor – ainda que muito obscuramente – toda a obra de arte que pretenda atingir os mais altos desígnios deve, com paciência e uma infinita aplicação desde início, recuar milénios e juntar-se, se possível, à imemorial noite povoada pelos mortos que irão reconhecer-se nessa obra. Nunca, nunca, a obra de arte se destina às novas gerações. Ela é oferenda ao inúmero povo dos mortos.”

O Estúdio de Alberto Giacometti“, de Jean Genet, direto da Trama.

Até gritarem bem alto.

fervilham as palavras nos dedos,
esqueletos inúteis à procura de um corpo
que só eu lhes posso dar
memórias audíveis nos cantos escuros
vozes que em silêncio reclamam vida eterna
são elas. as palavras malditas e amadas
que nascem silenciosas no meu peito
até gritarem bem alto,
exigindo liberdade!

Aurora Maria Amaral

Descoberta.

As gavetinhas escondidas no criado-mudo estão se abrindo.
Contém: novas direções, pílulas para se ouvir a música interna, diversos tipos de áureas e ainda um lindinho manual ilustrado de perdões.

Vanessa Campos Rocha