Dois poemas

carta de alforria

já escrevi tantas cartas
de alforria!

não que tivesse sido genial
ou poderoso

mas porque
fui um homem livre

hoje contemplo
a minha grande casa branca

a minha grande casa branca
em ruínas

e sei que valeu a pena
ter resgatado tantos e tanta coisa
ao vazio e à solidão

valeu a pena
porque conquistei o meu direito
a ter medo

gil t. sousa
água forte
2005

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julgamos que a vida nos escapa e na realidade a vida é isso

Às vezes fico com a vista parada
─ por exemplo numa parede ─
durante um bom bocado. os olhos
deixam de ver por fora e o corpo
parece que não o sinto. Então
normalmente dou-me conta
(e não mo explico e espanto-me)
desta coisa estranha que é viver,
e faço-me perguntas que cortam
e o que sou concentra-se num ponto
e a única coisa que sinto é que eu
─ a voz que vive em mim e que me diz
isto e aquilo sem palavras ─
também serei menos um. Em breve.
Que tudo o que penso agora,
o que pensei e chegarei a pensar
há muito que não é nada.

juan miguel lópez
poesia espanhola, anos 90
organização e trad. de joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000

A Vida, segundo Roger Nygard.

“A outra coisa que temos de considerar é que talvez exista um Deus, mas que Ele não seja uma força benevolente. Se um avião cai e 300 pessoas são destruídas instantaneamente e alguém consegue sobreviver e diz: “É um milagre ter sobrevivido”. Isso não faz sentido para mim. – E os outros que morreram? Se Deus age assim, por que não impediu que o avião caísse? Mas esse seria um Deus arbitrário, você O temeria, mas não O amaria. Não posso lhe dizer nada a respeito de quem Deus seja ao menos que essa experiência aconteça com você. Eu gostaria de acreditar que Deus existe em cada boa ação. Encaro o conceito de Deus como um desafio, não como uma resposta”.

“Não duvido de Deus. Duvido dos Seus representantes. Até hoje, Deus não falou comigo. Somente o homem falou comigo, e, como sabemos, ele geralmente engana, mente e é motivado por outras coisas, além do desejo de transmitir a verdade”.

“Quando falava do meu projeto com meu vizinho, ele disse que os filhos já se indagavam sobre essas questões. Ele sugeriu entrevistá-los.

– O que ocorre quando morremos?
– Não há vida após a morte. Eis um segredo: não há céu ou inferno. Você morre. Boom. Morto. Como se tivesse uma venda nos olhos e não pudesse mais pensar. Pessoalmente, acho que é muito melhor que a felicidade eterna. Um mundo somente com felicidade é um mundo sem propósito. E me sentiria como uma marionete, controlada, não posso sentir dor, não posso sentir nada a não ser essa felicidade. Eu odiaria isso”.

“Se há uma vida após a morte, ela está no nosso coração. Isso é muito interessante. Não vamos a lugar algum. Este instante aqui e agora é muito precioso. Bem mais precioso do que se tivéssemos uma infinidade deles”.

“Às vezes as pessoas oram muito por um milagre e ele acontece. Um milagre significando algo muito improvável. Mas a verdade é que a coisa mais improvável seria se coisas improváveis não acontecessem”.

“O lado obscuro da crença de que os pensamentos significam algo são as pessoas que dizem: “Há pessoas passando fome em tal lugar, mas estou orando por elas.” Isso leva as pessoas a acreditar que orar pelos outros significa algo, que enviar bons pensamentos para o Universo significa algo. Isso não significa nada. Somente ações significam algo”.

“Por que os seres humanos desenvolvem a religião? Freud defendia que a religião era uma tentativa de recuperar a segurança da infância. Toda vez que a criança, um bebê, encontra-se numa posição de necessidade e chora, magicamente a mãe surge. A criança tem a ilusão de que foi ela quem fez com que aquela criatura surgisse. Isso acontece toda vez, milhares e milhares de vezes. Essas experiências repetidas de serem cuidadas quase que magicamente por essa criatura tão maravilhosamente empática, permanecem no inconsciente. Futuramente, quando adultos, nós nos encontramos em uma posição de necessidade, pedimos ajuda na forma de oração”.

“O argumento de que você tem de ser religioso ou acreditar em Deus para ser feliz é feito apenas por alguém em uma religião que sente que é a única forma de ele poder conseguir isso”.

“A religião é para quem acredita que irá para o inferno. A espiritualidade é para quem já esteve lá”.

“Você faz o bem porque sente prazer ao fazê-lo ou você está com medo de que se não o fizer, será punido. De qualquer forma, é servir a si mesmo”.

“A felicidade é subproduto de se ter propósito e sentido. Não é um objetivo”.

“Ninguém pode ser realmente feliz. Podemos ter momentos de felicidade, de alegria, mas a vida é muito difícil. A menos que sejamos completos idiotas, aí sim seremos felizes”.

“Se o seu apetite é muito grande, você sempre se sentirá insatisfeito. Assim, defendemos no Taoísmo, que devemos ficar contentes com nosso destino”.

“Ao aceitar o sofrimento, nós o superamos”.

“É bom ser importante, mas é muito mais importante ser bom”.

“Cada indivíduo deveria se esforçar para se satisfazer com o sentido da própria vida. Não com o sentido da vida”.

“Sinto que o sentido da minha vida está ligado as pessoas que conheço e ao que aprendi com elas. Por isso, decidi ampliar o meu círculo de contatos”.


Outras respostas interessantes ou curiosas do documentário “The Nature of Existence” (2010), de Roger Nygard.

Nem passado, nem medo.

A vida é a oferta que agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Os teus olhos
e os meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegam e de onde
regressam, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
suficiente o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

Concede-me agora
a felicidade de morrer, hoje que não tenho
nem passado nem medo.

Federico Gallego Ripoll

Eu nasci neste navio.

Toda aquela cidade, não se podia ver onde acabava. O fim? Por favor, podes me mostrar onde acaba? Não foi o que eu vi – que me impediu de sair deste barco – Max. Foi o que eu não vi. Percebes isso? Aquilo que eu não vi. Em toda aquela cidade dispersa havia tudo, exceto um fim. Toca em um piano. As teclas começam e acabam. Sabes que existem 88 delas e ninguém pode dizer o contrário. Elas não são infinitas, tu és infinito. E naquelas teclas a música que tu fazes é infinita e eu gosto disso. Consigo viver com isso. Mas tu me colocas naquela escada para descer do navio e mostra-me um teclado com milhões de teclas, milhões e bilhões de teclas que nunca acabam e essa é a verdade, Max, nunca acabam. Aquele teclado é infinito. Mas se esse teclado é infinito não existe música que tu possas tocar. Estás sentado no banco errado. Esse é o piano de Deus. Cristo, olhas-te bem para as ruas? Haviam centenas delas! Como é que tu fazes? Como é que escolhes uma só? Uma mulher, uma casa, um pedaço de terra para chamar de teu, uma paisagem para contemplar. Uma maneira de morrer. Todo aquele mundo pesando sobre ti sem saber onde é que ele acaba. Não tens medo de despedaçares só de pensar nisso? Na enormidade que é viver nele? Eu nasci neste navio. E o mundo passou por mim, mas a 200 pessoas de cada vez. E haviam aqui desejos, mas não mais do que aqueles que cabiam entre a proa e a popa. Toquei a minha felicidade, mas num piano que não era infinito. A terra é um navio demasiadamente grande para mim. É uma mulher demasiadamente bonita. Uma viagem demasiadamente longa. Um perfume demasiadamente forte. É música que eu não sei fazer. Não posso sair deste navio.

Do filme A lenda do pianista do mar, de Giuseppe Tornatore

Não consigo sossegar.

cs-lewis

Porque dou eu guarida no meu espírito a tanto lixo e disparate? Estarei na esperança de que, se o que sinto se disfarçar de pensamento, sentirei menos? Não serão todas estas notas as contorções sem sentido de um homem que não quer aceitar o fato de que nada há a fazer quanto ao sofrimento, a não ser sofrê-lo? Na realidade, pouco importa que nos agarremos aos braços da cadeira do dentista ou que mantenhamos as mãos quietas no colo. A broca continua a brocar.

E a dor continua a assemelhar-se ao medo. Talvez, mais precisamente, à ansiedade. Ou à expectativa. Estar simplesmente na expectativa de que alguma coisa aconteça. E isso dá à vida um sentido permanentemente provisório. Não parece que valha a pena começar a fazer seja o que for. Não consigo sossegar. Bocejo, agito-me, fumo demais. Até isto acontecer, tinha sempre demasiado pouco tempo. Agora não há mais nada senão tempo. Tempo quase puro, um vazio consecutivo.

C. S. Lewis, excerto de Dor.

Terror.

(…)

Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes coletivos,
a queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego em casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.

José Miguel Silva