Para ser como criança.

child_by_natalkah

1. Espontaneidade de ação:  crianças, como se diz, não têm uma vida interna complexa, então suas respostas a acontecimentos são imediatas, quase instintivas, e sem a ansiedade que frequentemente acompanha análises retrospectivas, comuns aos adultos, de gestos ou ações já realizados.

2. Orientação para o aqui-e-agora: em decorrência do primeiro componente, as crianças não têm uma bagagem de passado e, sobretudo, têm menos capacidade para imaginar concretamente seu futuro (embora sem dúvida possuam uma imaginação rica), de modo que sua perspectiva tende, na maior parte, a ser orientada para o presente, e não ao passado ou ao futuro.

3. Facilidade de expressão verbal e corporal: sem consciência da observação dos outros, as crianças navegam livremente nos espaços físico, auditivo, olfativo e verbal que habitam.

Do livro Existo, logo penso, de Alexander George (Objetiva, 155-56)

Trato palavras como gestos que me salvam…

Não trato palavras
nas medidas metálicas.
Aço exato

Tampouco trato palavras
nas medidas circunstanciais do calor,
dilatadas,
recolhidas.
Inconstantes.

Trato palavras
como gestos necessários,
aqueles que me salvam,
me resgatam do cotidiano,
do tempo medido nos ponteiros.
Ingrato

Trato palavras
como fragmentos de poemas
à procura de um restaurador.

Do poema “Das medidas e do tamanho”, de Margarete Schiavinatto

Um conhecimento objetivo do mundo.

O modo como nosso cérebro arquiva impressões, separando nessa hora o importante do sem importância, e porque o faz, é um mistério. Por outro lado, parece estar claro que, para conseguir me lembrar conscientemente de algo, e tirá-lo de modo autônomo de uma gaveta da memória, tenho que compreender essa vivência verbalmente. Isso não precisa se dar em palavras, como num poema aprendido de cor, entretando precisa, como sempre, ser refletido. E, segundo sabemos, uma reflexão sem linguagem não é possível para o cérebro humano. E já que tudo o que sabemos ou acreditamos saber está ligado à linguagem, o que há por trás desse tão especial meio de conhecimento? Será que a linguagem assegura um acesso privilegiado à realidade? Será que ela nos transmite um conhecimento objetivo do mundo?

Richard Precht, Quem sou eu? E, se sou, quantos sou? (Ediouro, pg. 92)