Poesia, Solidão, Tempo

Tarde.

Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

Poema de Vasant Abaji Dahake.

Deus, Escrita, Julgar, Verdade

Há um limite para se ser profundo.

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124 – Há um limite para se ser profundo. Há um limite para se ser subtil. Há um limite para se ser bom observador. Nós temos de nos mover num mundo de limites para a viabilidade de se ser. O limite da profundeza é a escuridão. O da observação é o do microscópio electrónico. Mas tudo no homem é assim. Para lá de certos limites é a confusão, a gratuidade, a loucura. Assim o grande amor se reconhece na morte ou o excesso da razão na confusão ou sofisma ou absurdo ou impensável ou gratuito. Todo o excessivo no homem é desumano ou degenerescência ou vazio. Mas que há de grande no homem senão o excesso de si? E é decerto aí que mora Deus. Ou mais para lá.

Vergílio ferreira, Escrever, Bertrand Editora, 2001.

Conhecimento, Desejo, Escrita, Identidade, Mudanças

Último retrato de juventude.

Faz quase três anos que não escrevo
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio

que avança – e não me assusta – como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.

Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto

do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.

Poema de Javier Salvago.

Identidade, Valores, Vida

Por mim.

Quando a minha hora chegar
Ninguém vai chorar por mim,
E tu também não

Malditas sejam todas essas lágrimas!

Eu sou uma fera furiosa
Expulsa do rebanho

As balas podem furar-me a pele
Mas eu continuarei sem parar,

Arrastando para a frente as minhas chagas e a minha dor,
Atacando
Atacando
Até o sofrimento desaparecer

E não me vai custar nada

Eu quero viver mais mil anos

Poema de Chairil Anwar.

Cansaço, Identidade, Vida

Os restos.

Esvazio-me dos nomes dos outros. Esvazio os meus bolsos.
Esvazio os meus sapatos e largo-os à beira do caminho.
À noite faço retroceder os relógios;
Abro o álbum de família e vejo como era em rapaz.

O que ganho com isto? As horas fizeram o seu trabalho.
Digo: o meu próprio nome. Digo: adeus.
As palavras seguem-se umas às outras seguindo o vento.
Amo a minha mulher mas mando-a embora.

Os meus pais deslocam-se dos seus tronos
para dentro dos quartos leitosos das nuvens. Como posso cantar?
O tempo diz-me o que sou. Mudo e sou o mesmo.
Esvazio-me da minha vida e a minha vida é o que me resta.

Poema de Mark Strand.

Identidade, Julgar, Valores, Verdade

O lobo.

Não acredites em tudo o que ouves.
Os lobos não são tão maus como os cordeiros.
Eu tenho sido um lobo toda a minha vida,
E tenho duas filhas adoráveis
Para o comprovar; em contrapartida poderia
Contar-te histórias repugnantes
De cordeiros que tiveram o que mereceram.

Poema de Kenneth Rexroth