Inevitáveis.

Muitos acreditam que nenhum destino é determinado com antecedência, e que todas as histórias pessoais são essencialmente uma cadeia de coincidências. E, no entanto, mesmo os que assim pensam, muitas vezes chegam à conclusão, quando olham para trás, que acontecimentos vistos no passado como produto do acaso eram, na realidade, inevitáveis.

O CASTELO BRANCO, ORHAN PAMUK

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O tempo.

O tempo é uma fortaleza de papel. Todos os passos se resolvem em caminhos esquecidos. Todos os horizontes se erguem como livros guardados. Leio tudo o que me cerca, como se tivesse que esconjurar impressionantes silêncios. Tenho aqui o mundo e aqueles que lhe traçaram a órbita. Tenho aqui as minhas noites e os meus dias, os anos e as estações, as latitudes e as longitudes… Tenho aqui os fundamentais pontos que me marcaram o norte e o sul.

Dou-me esta ilusão de uma manhã lúcida e depois parto pelos dias adentro, interiormente, dissimuladamente como a maré de um sentimento. Tenho na pele a nostalgia de um lugar perdido. Navios, grandes navios adormecidos no seu azul ferido. Dançam-me a sua morte num pensativo silêncio. Exaltam o seu morrer numa coreografia de lágrimas em ferrugem, escondem na imobilidade dramática dos guindastes o diário intacto das viagens cumpridas. Os arranhões no ferro são linhas de mapas impossíveis e no fim dos seus nomes já não brilha a recompensa de um destino.

Ah! os nomes e as intenções que contêm! Um nome é um cruzeiro no nada, uma corrente que nos arrasta ao incerto do paraíso ou do inferno.

Gil T. Sousa

Estou sempre mudando.

Pai, não sei se está interessado em ouvir algo sobre mim. Minha vida não tem muito a ver…com o estilo de vida que você aprova. Estou sempre mudando. Não por estar trabalhando para algo em particular…eu só quero me afastar das coisas que vão dar errado.

Robert Dupea, personagem de Jack Nicholson no filme “Five Easy Pieces” (1970).

Não sabemos nada.

Não sabemos nada.
Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio de um cais frio.
Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltamos a enganar.

Amalia Bautista

Do ótimo A Dança dos Erros

A Vida, segundo Roger Nygard.

“A outra coisa que temos de considerar é que talvez exista um Deus, mas que Ele não seja uma força benevolente. Se um avião cai e 300 pessoas são destruídas instantaneamente e alguém consegue sobreviver e diz: “É um milagre ter sobrevivido”. Isso não faz sentido para mim. – E os outros que morreram? Se Deus age assim, por que não impediu que o avião caísse? Mas esse seria um Deus arbitrário, você O temeria, mas não O amaria. Não posso lhe dizer nada a respeito de quem Deus seja ao menos que essa experiência aconteça com você. Eu gostaria de acreditar que Deus existe em cada boa ação. Encaro o conceito de Deus como um desafio, não como uma resposta”.

“Não duvido de Deus. Duvido dos Seus representantes. Até hoje, Deus não falou comigo. Somente o homem falou comigo, e, como sabemos, ele geralmente engana, mente e é motivado por outras coisas, além do desejo de transmitir a verdade”.

“Quando falava do meu projeto com meu vizinho, ele disse que os filhos já se indagavam sobre essas questões. Ele sugeriu entrevistá-los.

– O que ocorre quando morremos?
– Não há vida após a morte. Eis um segredo: não há céu ou inferno. Você morre. Boom. Morto. Como se tivesse uma venda nos olhos e não pudesse mais pensar. Pessoalmente, acho que é muito melhor que a felicidade eterna. Um mundo somente com felicidade é um mundo sem propósito. E me sentiria como uma marionete, controlada, não posso sentir dor, não posso sentir nada a não ser essa felicidade. Eu odiaria isso”.

“Se há uma vida após a morte, ela está no nosso coração. Isso é muito interessante. Não vamos a lugar algum. Este instante aqui e agora é muito precioso. Bem mais precioso do que se tivéssemos uma infinidade deles”.

“Às vezes as pessoas oram muito por um milagre e ele acontece. Um milagre significando algo muito improvável. Mas a verdade é que a coisa mais improvável seria se coisas improváveis não acontecessem”.

“O lado obscuro da crença de que os pensamentos significam algo são as pessoas que dizem: “Há pessoas passando fome em tal lugar, mas estou orando por elas.” Isso leva as pessoas a acreditar que orar pelos outros significa algo, que enviar bons pensamentos para o Universo significa algo. Isso não significa nada. Somente ações significam algo”.

“Por que os seres humanos desenvolvem a religião? Freud defendia que a religião era uma tentativa de recuperar a segurança da infância. Toda vez que a criança, um bebê, encontra-se numa posição de necessidade e chora, magicamente a mãe surge. A criança tem a ilusão de que foi ela quem fez com que aquela criatura surgisse. Isso acontece toda vez, milhares e milhares de vezes. Essas experiências repetidas de serem cuidadas quase que magicamente por essa criatura tão maravilhosamente empática, permanecem no inconsciente. Futuramente, quando adultos, nós nos encontramos em uma posição de necessidade, pedimos ajuda na forma de oração”.

“O argumento de que você tem de ser religioso ou acreditar em Deus para ser feliz é feito apenas por alguém em uma religião que sente que é a única forma de ele poder conseguir isso”.

“A religião é para quem acredita que irá para o inferno. A espiritualidade é para quem já esteve lá”.

“Você faz o bem porque sente prazer ao fazê-lo ou você está com medo de que se não o fizer, será punido. De qualquer forma, é servir a si mesmo”.

“A felicidade é subproduto de se ter propósito e sentido. Não é um objetivo”.

“Ninguém pode ser realmente feliz. Podemos ter momentos de felicidade, de alegria, mas a vida é muito difícil. A menos que sejamos completos idiotas, aí sim seremos felizes”.

“Se o seu apetite é muito grande, você sempre se sentirá insatisfeito. Assim, defendemos no Taoísmo, que devemos ficar contentes com nosso destino”.

“Ao aceitar o sofrimento, nós o superamos”.

“É bom ser importante, mas é muito mais importante ser bom”.

“Cada indivíduo deveria se esforçar para se satisfazer com o sentido da própria vida. Não com o sentido da vida”.

“Sinto que o sentido da minha vida está ligado as pessoas que conheço e ao que aprendi com elas. Por isso, decidi ampliar o meu círculo de contatos”.


Outras respostas interessantes ou curiosas do documentário “The Nature of Existence” (2010), de Roger Nygard.

Mas eu tenho.

Meu amigo Bobby Gaylor tem uma opinião a respeito de tudo que perguntam a ele.
– O que acha sobre a morte?
– Fui ao IML em Los Angeles. Numa pesquisa para um projeto. Quando entrei na cripta, estava cercado por 104 corpos. Estavam em macas. Não estavam nas gavetas. E o sentimento que pensava que fosse ter, no meio daqueles corpos, não foi o sentimento que tive. Fiquei cheio de esperança, pois, de repente, ocorreu-me que aquelas pessoas não tinham mais escolhas, mas eu tinha. Comecei a pensar: “Quando sair daqui, vou ligar para meu irmão. “Vou ligar para minha mãe. Sempre quis ir à Europa. “Vou marcar uma viagem.” E pelo resto daquele dia, tão rápido quanto estou falando agora, estava dominado por “ter escolhas”. Isso passou. Mas naquele dia, aquelas pessoas me lembraram que elas não tinham mais escolhas. Mas eu tinha.

Do documentário “The Nature of Existence”, de Roger Nygard (2010)

A esperança criticada.

Esperar é desejar sem fruir, sem saber e sem poder. – André Comte-Sponville.

Esperar é antes de tudo, desejar sem fruir, já que por definição, é claro que não possuímos os objetos de nossas esperanças. Esperar enriquecer, ser jovem, ter boa saúde, etc. certamente não é já sê-lo. É situar-se na falta do que gostaríamos de ser ou possuir. Mas é também desejar sem saber: se soubéssemos quando e como os objetos de nossas esperanças iriam se realizar, nós nos contentaríamos, sem dúvida, em aguardá-los, o que, se as palavras têm sentido, é muito diferente. Enfim, é desejar sem poder, visto que, ainda por comprovação, se tivéssemos a capacidade ou o poder de atualizar nossas aspirações, de realizá-las aqui e agora, não nos privaríamos delas. Limitar-nos-íamos a agir, sem passar pelo atalho da esperança.

O raciocínio é impecável. Frustração, ignorância, impotência, são essas as características maiores da esperança.

Luc Ferry, Aprender a Viver – Filosofia para os Novos Tempos (Objetiva, pg, 273)