Pela certeza de estar contente.

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Ah, quem me dera um lugar
no olho do furacão
– um centro de paz
no seio do turbilhão!
Um barracão de madeira
rodeado por um jardim
onde ninguém se lembrasse
nem pensasse em mim.

Mulher e filhos comigo,
sem cuidados nem sustos,
entregues todos à faina
de cultivar o umbigo.
Nada de planos nem datas,
visitas ou comprimissos;
apenas a chuva nas latas
do telhado e o vento
a cantar nos caniços.

Na hora de comer, comer;
na hora de bailar, bailar;
na hora de dormir, dormir.
E isso não é trabalhar?
Beber água com a boca,
usar os olhos para ver;
parece fácil ao dizer,
mas são necessárias mil vidas
para o aprender.

Nenhum lampejo de inteligência,
tudo opaco, sem brilho:
digamos que se trata de trocar o ouro
pela madeira, o banquete
por um peixe a frigir na frigideira.
De resto, borboletas no espaço,
algumas carpas agitando as águas
do tanque e ausência de mágoas.
Nenhum sonho impossível
lançado aos ares para morrer
no laço; nem suposições,
hipóteses, conjecturas, projetos,
que ao primeiro terremoto
desabassem com pesos concretos.

Visões, sim; mas tão leves
que pudessem pairar
sobre nosso breve dia
com asas de poesia
sustentadas tão-somente
pela certeza de se estar contente.

Excertos do poema “Ah, quem me dera um lugar”, Eduardo Alves da Costa, Poesia Reunida, pp. 155-6 (Geração Editorial)

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Insônia.

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Como chateia isso de ouvir
ladrarem os cães à noite!
E o pior é que nem sou fumante.
Folheio uma revista, ligo
e desligo a TV, preparo um chá.
Que fôlego têm esses cães!
Deviam ser políticos.
Sorvo meu chá e reconheço
que encalhei nos sargaços,
prendeu-se a aba da vida
numa rebarba da cerca
e aqui estou, entre a xícara
e o Universo, perplexo.
Minha voz resmunga e eu me assusto;
só me faltava dar em falar sozinho!
Porra, será que esses malditos cães
não tem um osso para roer?!
Abandonei o fumo, deixei de beber
e confesso que me sinto muito pior.
Antes, ao menos, eu acendia um cigarro
ou brincava com as pedras de gelo e tudo
ia tomando seu lugar. Mas essa
de estar aqui sentado numa poltrona,
como quem espera sua vez no dentista,
é mesmo uma grande chatice.
Amanhã não vou ao trabalho.
Que diabo vou fazer lá se nem mesmo sei
o que ando a fazer no mundo?!
Escrevo uma carta simples, objetiva,
meto-a no correio e depois vou ao cinema.
Para sempre. Lá ao menos a vida se resolve
em duas horas, com direito
a jornal, desenho animado e trailer.
Por que será que os cães deixaram de latir?

Eduardo Alves da Costa, Poesia Reunida, p. 218-9 (Geração Editorial)

Eu estou aqui!

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A divindade se foi,
como tanta ilusão da mocidade.
E embora perdido, sem novelo,
nas masmorras deste pesadelo,
hoje ao menos sei: homem humano,
brasileiro, precário,
escravo sou e por muitos anos,
ainda o serei. Mas a saída
não esqueci: lá, onde a luz
espera aqueles que não traíram
o melhor de si.
E ao pesadelo, aos suores frios,
ao terror da noite
e Deus minotauros, respondo
aos gritos, em nome
de todos os aflitos:
eu sou um homem!
eu estou aqui!

Eduardo Alves da Costa, Poesia Reunida, p. 92 (Geração Editorial)

Dramatis Personae

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O trabalho de um ator não é criar sentimentos, mas apenas produzir as circunstâncias dadas, nas quais os sentimentos verdadeiros serão espontaneamente criados. (p. 9)

Representar verdadeiramente significa ser exato, lógico, coerente, empenhar-se, sentir e atuar em uníssono com o seu papel. Para representar verdadeiramente, vocês devem enveredar pelo caminho dos objetivos certos, como se estes fossem sinais de demarcação a orientá-los através de uma planície árida e deserta. (p. 35)

Quanto mais delicado o sentimento, tanto mais precisão, clareza e qualidade plástica são exigidas para a sua expressão física. Todos os momentos da atuação de um artista talentoso devem ser clara e plenamente sentidos. (pp. 47-8)

Um ator deve, sobretudo, acreditar no que está acontecendo ao seu redor e naquilo que ele próprio está fazendo. A partir do instante em que é levado do plano da realidade para o de uma vida imaginária, e acredita nela, ele pode começar a criar. (p. 92)

A imaginação cria coisas que podem existir ou acontecer. Cada movimento que vocês fizerem em cena, cada palavra que disserem, será resultado da vitalidade de sua imaginação. (p. 107)

Ponham vida em todas as circunstâncias e ações imaginárias, até satisfazerem plenamente o seu senso de verdade e despertarem um senso de fé na realidade de suas sensações. (p. 117)

As pessoas sempre se sentem atraídas por aquilo que não têm, e os atores costumam usar o palco para obterem o que a vida real não lhes ofereceu. (p. 192)

O grande ator deve sentir o papel que está representando não apenas uma ou duas vezes, enquanto o estuda, mas em maior ou menor grau todas as vezes que representá-lo, não importando se o faz pela primeira ou pela milésima vez. (p. 208)

O ator deve ter uma grande força de vontade. O primeiro dever de um ator é aprender a controlar sua vontade. Poucos atores possuem a determinação e a tenacidade necessárias para realizar o trabalho que lhes permitirá alcançar a verdadeira arte. (p. 209)

C. Stanislavski, Manual do ator (Martins Fontes)