O meu apartamento.

Eu vivo mesmo é perto dos telhados, das nuvens e dos passarinhos, e quando eu entro no meu apartamento tranco a porta, e fico ali dentro sozinho, horas e horas sonhando acordado, voando na imaginação, pensando mil fantasias, o meu apartamento é cheio, cheio, cheio de coisas, tantas coisas que eu acho que a pessoa fica confusa e não me entende, porque cada uma daquelas coisas tem uma história, uma lembrança, então acho que só eu posso compreender o meu apartamento, a maioria das pessoas não olha os detalhes do meu apartamento, olha uma coisa aqui e outra ali, mas eu vejo tudo ao mesmo tempo.

Do conto “O meu quarto”, de Ana Miranda, adaptado.

Planejar o futuro é uma fuga.

Planejar o futuro é uma fuga, eu acho que planejar o futuro é mesmo uma fuga de viver o dia e olhar o que está acontecendo agora, quando eu era criança eu nunca planejava o futuro e o tempo para mim parece que não passava, nem existia, só o presente, e tudo era mais intenso, hoje às vezes eu fico planejando o futuro, pensando no que eu vou ser (…), chega de pensar no futuro, ah, pensar no futuro cansa tanto! E quando vejo, o tempo passou e eu não percebi, Divirta-se, já que você não consegue mudar nada, essa é outra frase que fica na porta do meu quarto, a gente consegue mudar alguma coisa no mundo, um pouco, pouquíssimo, quase nada, e acho que o mundo muda mais a gente do que a gente muda o mundo (…).

Ana Miranda, do conto, “O meu quarto“.

A vida de um homem normal.

metro

Uma noite, voltando de metrô para casa, como fazia cinco vezes por semana, onze meses por ano, ele ouviu uma voz. Estava exausto, com o nó da gravata frouxo no pescoço, o colarinho desabotoado, a cabeça jogada para trás, o walkman a todo o volume e os fones enterrados nos ouvidos. De repente, antes mesmo de poder perceber a interrupção, a música que vinha ouvindo cessou sem explicações e, ao cabo de um breve silêncio, no lugar dela surgiu uma voz que ele não sabia nem como, nem de quem, nem de onde. Ergueu a cabeça. Olhou para os lados, para os outros passageiros. Mas era só ele que a ouvia. Falava aos seus ouvidos. Recompôs-se. A voz lhe disse umas tantas coisas, que ele ouviu com atenção, que era justamente o que ela pedia. Poderia ter cutucado o vizinho de banco. Poderia ter saído do metrô e corrido até em casa para anunciar o fato extraordinário que acabara de acontecer. Poderia ter sido tomado por louco e internado num hospício. Poderia ter passado o resto da vida sob o efeito de tranqüilizantes. Poderia ter perdido o emprego e os amigos. Poderia ter vivido à margem, isolado, abandonado pela família, tentando convencer o mundo do que a voz lhe dissera. Poderia não ter tido filhos e os netos que acabou tendo. Poderia ter fundado uma seita. Poderia ter sido perseguido. Poderia ter sido preso. Poderia ter sido assassinado, crucificado, martirizado. Poderia vir a ser lembrado séculos depois, como líder, profeta ou fanático. Tudo por causa da voz. Mas entre os mandamentos que ela lhe anunciou naquela primeira noite em que voltava de metrô para casa, e que lhe repetiu ao longo de mais cinqüenta e tantos anos em que voltou de metrô para casa, o mais peculiar foi que não a mencionasse a ninguém, em hipótese alguma. E, como ele a ouvia com atenção, ao longo desses cinqüenta e tantos anos nunca disse nada a ninguém, nem apropria mulher quando chegou em casa pela primeira vez, muito menos aos filhos quando chegaram à idade de saber as verdades do mundo. Acatou o que lhe dizia a voz. Continuou a ouvi-la todo os dias, sempre com atenção, mas para os outros era como se nunca a tivesse ouvido, que era o que ela lhe pedia. Morreu cinqüenta e tantos anos depois de tê-la ouvido pela primeira vez, sem que ninguém nunca tenha sabido que a ouvia, e foi enterrado pelos filhos e netos, que choraram em torno do túmulo a morte de um homem normal.

Bernardo Carvalho, da coletânea de contos, “Boa Companhia” (Cia das Letras, 2003).