Eu nasci neste navio.

Toda aquela cidade, não se podia ver onde acabava. O fim? Por favor, podes me mostrar onde acaba? Não foi o que eu vi – que me impediu de sair deste barco – Max. Foi o que eu não vi. Percebes isso? Aquilo que eu não vi. Em toda aquela cidade dispersa havia tudo, exceto um fim. Toca em um piano. As teclas começam e acabam. Sabes que existem 88 delas e ninguém pode dizer o contrário. Elas não são infinitas, tu és infinito. E naquelas teclas a música que tu fazes é infinita e eu gosto disso. Consigo viver com isso. Mas tu me colocas naquela escada para descer do navio e mostra-me um teclado com milhões de teclas, milhões e bilhões de teclas que nunca acabam e essa é a verdade, Max, nunca acabam. Aquele teclado é infinito. Mas se esse teclado é infinito não existe música que tu possas tocar. Estás sentado no banco errado. Esse é o piano de Deus. Cristo, olhas-te bem para as ruas? Haviam centenas delas! Como é que tu fazes? Como é que escolhes uma só? Uma mulher, uma casa, um pedaço de terra para chamar de teu, uma paisagem para contemplar. Uma maneira de morrer. Todo aquele mundo pesando sobre ti sem saber onde é que ele acaba. Não tens medo de despedaçares só de pensar nisso? Na enormidade que é viver nele? Eu nasci neste navio. E o mundo passou por mim, mas a 200 pessoas de cada vez. E haviam aqui desejos, mas não mais do que aqueles que cabiam entre a proa e a popa. Toquei a minha felicidade, mas num piano que não era infinito. A terra é um navio demasiadamente grande para mim. É uma mulher demasiadamente bonita. Uma viagem demasiadamente longa. Um perfume demasiadamente forte. É música que eu não sei fazer. Não posso sair deste navio.

Do filme A lenda do pianista do mar, de Giuseppe Tornatore

Porquê caem os quadros?

Velhote, alguma vez se questionou porque caem os quadros? Ficam ali pendurados durante anos, e depois sem qualquer aviso…caem. Estão ali pendurados naquele prego, ninguém sequer lhes toca, mas a certa altura lá vão eles, em silêncio absoluto. Com tudo perfeitamente calmo à volta deles. Nem sequer uma mosca à voar perto deles. Não há qualquer razão. Porquê naquele instante? O que acontece a um prego para o fazer decidir que não aguenta mais? Será que também tem alma, o pobre coitado? Será que toma decisões?

Do filme A lenda do pianista do mar, de Giuseppe Tornatore.

Mary and Max.

Mary & Max (Mary and Max, 2009), 80 min.
Direção: Adam Elliot
Roteiro: Adam Elliot
Com: Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana, Barry Humphries, Bethany Whitmore, Renée Geyer, Ian ‘Molly’ Meldrum (vozes)

Uma de minhas cartas favoritas…

A razão por eu te perdoar é porque você não é perfeita. Você é imperfeita e eu também. Todos os humanos são imperfeitos, até mesmo o homem do lado de fora do meu apartamento que joga lixo no chão. Quando eu era jovem eu queria ser qualquer pessoa, menos eu. O Dr. Bernard Hazelhof disse que se eu estivesse numa ilha deserta então eu teria que me acostumar com a minha própria companhia, ele disse que eu teria que aceitar a mim mesmo, meus defeitos e tudo o mais e que nós não escolhemos nossos defeitos, eles são parte de nós e nós temos que viver com eles. Mas nós podemos escolher os nossos amigos e eu fico feliz por ter escolhido você. O Dr. Hazelhof também diz que a vida de todo o mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas. Outras, como a minha, têm fendas, cascas de banana e bitucas de cigarro. Sua calçada é como a minha, mas provavelmente sem tantas fendas. Com esperança, um dia nossas calçadas vão se encontrar, e nós poderemos dividir uma lata de leite condensado. Você é minha melhor amiga. Você é minha única amiga. Seu amigo de correspondência americano, Max Jerry Horowitz.

Censura.

Os objetos inanimados estão sempre em ordem e nós infelizmente não temos nada a censurar-lhes. Nunca vi uma poltrona trocar de pé ou uma cama erguer-se nas pernas traseiras. E as mesas, mesmo quando estão fatigadas, não se põem de joelhos. Suspeito que os objetos se comportam assim por razões pedagógicas: para nos censurarem constantemente pela nossa instabilidade.

Zbigniew Herbert, “Escolhido Pelas Estrelas“, Assírio & Alvim, 2009.

Mas não sei o que fazer com a misericórdia.

Uma tristeza exclusiva do Verão,
das despedidas ou das noites de Verão.
Durante o dia é impossível notá-la,
tal como no Inverno, quando está ocupada
a combater o frio.
Os meus sonhos recentes anunciam mudanças
mas não sei o que fazer com a
misericórdia. A representação da dor
é aquilo que dói. Já se pode abrir a janela,
um pouco, todos os dias, e escutar
as buzinas, a tarde rebentando.
Prefiro não fazer nada, que é pior.

O Discurso Opcional Obrigatório
de Mariano Peyrou