Tédio.

Eu me dizia então que o mundo é devorado pelo tédio. Naturalmente, é preciso refletir um pouco para se dar conta disso, não é uma coisa que se perceba imediatamente. É uma espécie de poeira. A pessoa vai e vem, sem a ver, respira essa poeira, come e bebe essa poeira, e ela é tão fina que nem faz barulho quando é mordida. Mas basta parar um momento e ela torna a cobrir o rosto e as mãos da pessoa. É preciso se agitar sem parar afim de sacudir essa poeira de cinzas. Por isso mesmo, o mundo se agita muito.

Lendo George Bernanos, Diário de um Pároco de Aldeia (Paulus)

Estou sempre mudando.

Pai, não sei se está interessado em ouvir algo sobre mim. Minha vida não tem muito a ver…com o estilo de vida que você aprova. Estou sempre mudando. Não por estar trabalhando para algo em particular…eu só quero me afastar das coisas que vão dar errado.

Robert Dupea, personagem de Jack Nicholson no filme “Five Easy Pieces” (1970).

Procura-se um emprego inusitado.

Procura-se um emprego inusitado. Não interessa o primeiro milhão, mas a bilionésima batida de um coração satisfeito com o único tempo que teve para pôr a venda. Se este tempo for digno daquilo que o melhor da humanidade pôs em mim, eu hei de ser o seu escravo liberto. A qualidade dos serviços prestados está em meus olhos e em minhas mãos. Pois nada mais são do que a exata medida dos extremos de um homem. É fácil saber reconhecê-lo, desde que o contratante saiba o que lhe enche os próprios olhos e com o que se ocupam as próprias mãos. O resto é facilmente negociável, por falta de palavra menos indigna, conforme os ditames do mundo como ele é. Para contato com este flanêur (não lhe soa bem a palavra?) usar a palavra-chave IMAGINAÇÃO. É dela que nasce uma nova sociedade e um novo mundo de relações e trocas sociais. Não escolhemos o que somos tanto quanto sonhamos, e além da função social do trabalho, menos importante, a meu ver, a vida parcialmente produtiva, é uma longa e aborrecida espera, citando um grande amigo livresco. Subverta você também as relações empregatícias. É porque você e eu as criamos que não dormimos bem a noite. O mundo não é feito de boas pessoas, mas de bons negócios? Os negócios não deveriam estar ao lado dos interesses da coletividade de modo a que todos nós criássemos uma sociedade mais justa e socialmente aceitável? Você deve estar pensando que eu tenho 15 anos, não é? Bom. Eu não tenho. E estou falando sério. E você sabe exatamente em que pontos a vida em si fala por mim – e penso eu, fala por você também. Interessados mandar carta escrita à mão e registrada para o endereço a ser observado nestas paragens. Mais e melhores boas pessoas trabalhando para você, digo, bons negócios!

Att.

Você sabe quem.

Justifique.

Se a vida é o acaso e talvez, por acaso, seja mesmo; se tudo pode mudar de um minuto pra outro e tudo muda mesmo, que vale, então, tudo? Ou, se, por outro lado, a vida é o acaso e se, por acaso, as coisas não mudam, nem de um minuto pra outro nem de um dia pra outro e à noite, todos estarão lá, nos mesmos postos, como se o sol não tivesse ardido e não tivesse se posto, e eu também passarei por lá, à mesma hora, com a mesma sensação e os mesmos pensamentos, por que, então, me deixar tomar por tanta dor? Entender, pensar, concluir – velho hábito das provas escolares: justifique – e eu justificava tudo o que podia, tudo o que sabia, e até o que não sabia, só para garantir o dez, e agora, o justifique se repetindo, como prova de maturidade: pense, entenda, aceite-se, justifique, “justifique-se”. Justificar a vida, a miséria, a morte, o amor, o desamor…- como?

Do conto “Por Acaso”, de Nilza Rezende.

Impossível de perder?

Dou-me à veleidade de sonhar vida nova. De, como já disse, querer refazer o meu mundo, abrir outros horizontes, enquanto de fato me sinto morrer aos poucos. Não tanto do corpo, mas da alma, com a impressão de que esta vai perdendo o que eu julguei impossível de perder e se aproxima dum temeroso vazio.

J. Rentes de Carvalho

Quero saber o que desejas ardentemente.

Não me interessa saber o que fazes para ganhar a vida. Quero saber o que desejas ardentemente, se ousas sonhar em atender aquilo pelo qual o teu coração anseia. Não me interessa saber a tua idade. Quero saber se arriscarás parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com a tua lua. Quero saber se tocaste o âmago da tua dor, se as traições da vida te abriram ou se te tornaste murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se podes suportar a dor, minha ou tua; sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se podes aceitar alegria, minha ou tua, se podes dançar com abandono e deixar que o êxtase te domine até às pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizeres para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que contas é verdade. Quero saber se consegues desapontar outra pessoa para ser autêntico contigo mesmo, se podes suportar a acusação de traição e não traíres a tua alma.

Quero saber se podes ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se podes buscar a origem da tua vida na presença de Deus, quero saber se podes viver com o fracasso, teu e meu e ainda, à margem de um lago, gritar para a lua prateada: Posso! Não me interessa onde moras ou quanto dinheiro tens. Quero saber se podes levantar-te após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até aos ossos, e fazer o que tem de ser feito pelos filhos. Não me interessa saber quem és e como vieste parar aqui. Quero saber se ficarás comigo no meio do incêndio e não te acovardarás. Não me interessa saber onde, o quê, ou com quem estudaste. Quero saber o que te sustenta a partir de dentro, quando tudo o mais se desmorona. Quero saber se consegues ficar sozinho contigo mesmo e se, realmente, gostas da companhia que tens nos momentos vazios.

Jean Houston

Un étranger.

Provoca uma certa melancolia,
uma tristeza decadente – seguramente literária—
como certas canções de entre guerras
ou páginas soltas de Drieu La Rochelle,
ver um homem só, afastado e distante,
no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.
Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente,
em que já não é jovem e contudo ainda não é velho
mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota
quando com um gesto estudado acende um cigarro.
Muitos copos e muitas camas,
uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa,
o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo,
fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.
Um homem que espera sabe deus o quê
e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença
as garrafas à sua frente, os rostos reflectidos por um espelho,
tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.
E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido,
ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio –
que esse homem és irremediavelmente tu.
Não resta então senão um sorriso céptico e distante
– aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –,
e acabares a bebida de um só trago,
pagares a conta enquanto chamas um táxi
e dizeres-te adeus com palavras banais.

Juan Luis Panero