Papagaios.

Há ignorâncias de vários graus de conhecimento completamente ilusórios. É mesmo o aborrecimento perpétuo da sociedade, esse torneio de verbosidades impetuosas e inestancáveis, que têm o ar de saber as coisas porque delas falam, o ar de crer, de pensar, de amar, de procurar, enquanto tudo isso é apenas ruído vão, aparências, vaidades, palavrório. O pior é que, estando o amor-próprio atrás desse palavrório, essas ignorâncias frequentemente são ferozes de afirmação, tornam-se essas parolagens por opiniões, apresentam-se os preconceitos por princípios. Os papagaios consideram-se seres pensantes, as imitações dão-se como originais, os fantasmas de idéias entendem ser tratados como substâncias, e a polidez exige que entremos nessa convenção. É fastidioso.

Diário Íntimo, Amiel, 9 de junho de 1877 (Ediouro, pg. 324)

Nada.

Eu não sou feliz, é desnecessário dizê-lo. Não sou resignado. Absolutamente não tenho paz. Alterno entre a indolência e o cuidado. O centro da minha calma é a desesperança. Não aceitei o que me magoa, não quero olhar o que me feriria. Oculto aos outros, e mesmo tento ignorar a raposa que me corrói as entranhas. Tenho a atitude do estóico, mas dele não tenho o orgulho, nem o vigor. No fundo da minha aparente serenidade aninha-se a tristeza incurável. Estou calmo diante da destruição, mas trago a morte na alma porque sinto esta vida falhada, e nada espero em compensação. Nada, nada, nada! Nada.

Diário Íntimo, Amiel, 9 de junho de 1877 (Ediouro, pg. 314)

Tempus fugit.

cadeiralunar

Tudo passa – sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e de nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por quê?

Mikhail Bulgakov, The White Guard (O exército branco)

Anjos e Demônios.

Quando perguntaram a Santo Antônio no deserto como podia diferenciar entre anjos que vinham a ele humildemente e demônios que vinham sob rico disfarce, ele disse que podia perceber a diferença pelo modo como se sentia depois que tinham ido embora. Quando um anjo nos deixa, nos sentimos fortalecidos por sua presença; quando um demônio nos deixa, sentimos o terror.

Andrew Solomon, O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão. (Objetiva, pg. 16)

Inteligência solitária.

Ninguém o conhecia a fundo. Certamente era o que ele queria, e assim foi. Talvez fosse tão solitário por causa da sua inteligência. Talvez fosse o contrário. De qualquer modo, inteligência e solidão sempre estiveram juntas. Uma fantástica inteligência solitária.

Robert Pirsig, Zen e a arte da manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores. (Paz e Terra, pg. 84)

Ponto de vista.

Há coisas que a gente não nota porque são muito pequenas para serem vistas. Mas há outras que a gente não vê porque são imensas.

Robert Pirsig, Zen e a arte da manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores. (Paz e Terra, pg. 58)