Agradar.

É extraordinário como nos tornamos violentos quando queremos agradar ao mundo. Agradar ao mundo resume o comportamento da sociedade nos seus aspectos mais retóricos.

Do Dicionário Imperfeito de Agustina Bessa-Luís.

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Estou sempre mudando.

Pai, não sei se está interessado em ouvir algo sobre mim. Minha vida não tem muito a ver…com o estilo de vida que você aprova. Estou sempre mudando. Não por estar trabalhando para algo em particular…eu só quero me afastar das coisas que vão dar errado.

Robert Dupea, personagem de Jack Nicholson no filme “Five Easy Pieces” (1970).

Arturo Bandini.

Prologue to Ask The Dust by John Fante, 1990 – John Register


Arturo, meu rapaz. Meu querido Arturo. Parece que você sofre tanto e tão injustamente. Mas você é corajoso, Arturo. Você me lembra de um valoroso guerreiro com as cicatrizes de um milhão de conquistas. Que coragem a sua! Quanta nobreza! Quanta beleza! Ah, Arturo como você é realmente bonito! Eu o amo tanto, meu Arturo, meu grande e poderoso deus. Pode chorar agora, Arturo. Deixe suas lágrimas escorrerem, pois a sua é uma vida de luta, uma batalha amarga até o fim, e ninguém sabe disso a não ser você, ninguém exceto você, um belo guerreiro que combate sozinho, inflexível, um grande herói como o mundo jamais conheceu outro igual.

John Fante, O Caminho de Los Angeles (José Olympio, pg. 133).

Cuando deja uno de creer en sí mismo.

Cuando deja uno de creer en sí mismo, deja de producir o de luchar, incluso de hacerse preguntas o de responderlas, siendo así que debería ocurrir lo contrario, ya que justo a partir de ese momento se está capacitado, libre de ataduras, para aprehender lo verdadero, para discernir lo que es real de lo que no lo es. Pero una vez agotada la creencia en el propio juego, en el propio destino, uno pierde la curiosidad por todo, incluso por la “verdad”, aunque se esté más cerca de ella que nunca.

E. M. Cioran, Del Incoveniente de haber nacido (Taurus).

Uma novidade de espírito.

Agora que existem computadores para quase todo o tipo de procura de soluções intelectuais — volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa. Mais que tudo, me busco no meu grande vazio.Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, tão extraordinária essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num escândalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra maiúscula nada pede me dar porque vou confessar que também eu devo ter entrado por um beco sem saída como os outros. Porque noto em mim, não um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. É uma questão de sobrevivência assim como a de comer carne humana quando não há alimento. Luto não contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de espírito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de espírito.

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações)

Se eu fosse um vencedor?

Ter dentro de mim o contrário do que sou é em essência imprescindível: não abro mão de minha luta e de minha indecisão e o fracasso – pois sou um grande fracassado – o fracasso me serve de base para eu existir. Se eu fosse um vencedor? morreria de tédio. “Conseguir” não é o meu forte. Alimento-me do que sobra de mim e é pouco. Sobra porém um certo secreto silêncio.

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações)

Grifos meus.

Milagre é o ponto vivo do viver.

Milagre é o ponto vivo do viver. Quando eu penso, estrago tudo. É por isso que evito pensar: só vou mesmo é indo. E sem perguntas por que e para quê. Se eu penso, uma coisa não se faz, não aconteço. Uma coisa que na certa é livre de ir enquanto não for aprisionada pelo pensamento.

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações)