Estou sempre mudando.

Pai, não sei se está interessado em ouvir algo sobre mim. Minha vida não tem muito a ver…com o estilo de vida que você aprova. Estou sempre mudando. Não por estar trabalhando para algo em particular…eu só quero me afastar das coisas que vão dar errado.

Robert Dupea, personagem de Jack Nicholson no filme “Five Easy Pieces” (1970).

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Não sabemos nada.

Não sabemos nada.
Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio de um cais frio.
Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltamos a enganar.

Amalia Bautista

Do ótimo A Dança dos Erros

Mas eu tenho.

Meu amigo Bobby Gaylor tem uma opinião a respeito de tudo que perguntam a ele.
– O que acha sobre a morte?
– Fui ao IML em Los Angeles. Numa pesquisa para um projeto. Quando entrei na cripta, estava cercado por 104 corpos. Estavam em macas. Não estavam nas gavetas. E o sentimento que pensava que fosse ter, no meio daqueles corpos, não foi o sentimento que tive. Fiquei cheio de esperança, pois, de repente, ocorreu-me que aquelas pessoas não tinham mais escolhas, mas eu tinha. Comecei a pensar: “Quando sair daqui, vou ligar para meu irmão. “Vou ligar para minha mãe. Sempre quis ir à Europa. “Vou marcar uma viagem.” E pelo resto daquele dia, tão rápido quanto estou falando agora, estava dominado por “ter escolhas”. Isso passou. Mas naquele dia, aquelas pessoas me lembraram que elas não tinham mais escolhas. Mas eu tinha.

Do documentário “The Nature of Existence”, de Roger Nygard (2010)

Ok.

– Faz quanto tempo?
– Um ano e meio.
– E você ainda está sozinho?
– Não, faz um ano e meio que eu vivo como um monge. Eu não acredito mais nas mulheres. As mulheres são sanguessugas. Elas te usam e te jogam fora.
– Então o que você quer comigo?
– Você é diferente.
– Eu percebi isso de cara, quando você disse que eu era cego. Que tudo era um ponto cego em volta do meu caminhão. Muito bem observado. Disse muito bem. Você é uma mulher inteligente. Não no sentido de esperta… Isso também, mas inteligente como uma coruja.
– Uma coruja?
– Sim, quer dizer…você me entende.
– Johnny, vou te contar uma coisa. O que eu menos preciso na minha vida é mais um homem. A minha vida já é suficientemente complicada. Quero ir para casa.
– Eu vou com você. Ficou bem de boina.
– É da minha filha.
– Assim você parece uma italiana.
– Você não tem vergonha, não?
– Só estou olhando seus tornozelos. Bonitos tornozelos. Você merece sapatos elegantes.
– Eu não vou transar com você. Nem em mil anos. Você ouviu? Ah, me deixa em paz.
– Qual é o problema, de verdade?A noite está bonita,você é bonita. Não tem nada para experimentar, nada para sentir? Como dizem os italianos: “Una notte senza amore è una notte perduta”.
– Como é?
– ‘Uma noite sem amor é uma noite perdida’.
– Nós não estamos na Itália. Estamos em Ledeberg. E aqui não tem amor.
– Eu olho para você e vejo a Mona Lisa. Olha, quando você sorri um pouco, quero ficar à toa. Com o meu caminhão no horizonte. Quero ficar com você. Você é minha Mona Lisa.Estou louco por você, como Da Vinci estava pela Mona!
– Merda, diz de uma vez que quer transar comigo.
– Mas não… minhas intenções são nobres.
– Você fala demais. Além disso, Da Vinci era bicha.
– Sério?
– E a Mona Lisa não está sorrindo. Na verdade, está deprimida. Ela tenta se esconder. Ela está presa em si mesma.
– Você não me entende.
– Você só quer transar comigo.
– Não é verdade.
– É só isso, sim, amigo.
– Tudo bem. OK.
– OK o que?
– Sim, você tem razão quanto a querer te levar para a cama.
– Você quer mesmo?
– Sim.
– Então simplesmente diga.
– Bem, eu gostaria com você…Você sabe disso.
– Tudo bem.
– O que quer dizer?
– Foi o que eu disse: tudo bem.
– OK.

Do filme Moscou, Bélgica (2008)

Propuesta.

Te propongo esta noche
llegar a un acuerdo,
un diálogo entre mi cuerpo y tu cuerpo
una conversación sin palabras,
un silencio de proyectos,
que tus dedos interpreten
el lenguaje de mis dedos.
Te propongo, simplemente,
alargar la caricia,
no planear la llegada a la cima
sino navegar con el remo de mis brazos
no utilizar para nada el salvavidas
ni que el tiempo detenga la mirada
dirigida a los botones de tu camisa.
Te propongo un pacto de susurros,
una tertulia de gemidos,
un monólogo de gritos,
que todo lo que no dijimos
en la piel permanezca escrito.
Te propongo una noche interminable,
lenta, muy lenta, tan lenta
que cuando nos interrogue la mañana
no sepamos quiénes somos
ni hacia dónde vamos,
como si aprendiéramos de nuevo a leer
igual que dos niños pequeños,
como si aprendiéramos de nuevo a escribir
sobre el pálido folio de nuestro cuerpo.
Te propongo una lectura corpórea
desde el prólogo de tus ojos
hasta el epílogo de mi boca.

Gloria Bosch

Do ótimo A Dança dos Erros

Desde que ande o bastante.

– “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”
– “Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.
– “Não me importa muito para onde”, disse Alice.
– “Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.
– “Contanto que eu chegue a algum lugar“, Alice acrescentou à guisa de explicação.
– “Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande o bastante”.

Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll.
Trad. Maria Luiza X. de A. Borges (Zahar, pg 77)