Se atreve?

Crítica do filme Amor ou Consequência? (2004)

Conto de fadas, tragédia, idealista, deprimente, mas, contudo, revigorante. A primeira longa-metragem de Yann Samuell é um hino à infância, o tesouro mais puro, quando somos capazes de tudo, sobretudo, de sonhar.

Julien (Verhaeghe) e Sophie (Lebas-Joly) têm 8 anos. A mãe de Julien morre de câncer. Sophie é polaca e sofre a pressão dos colegas de escola. Para fugirem à realidade, construindo um mundo semelhante aos seus sonhos, usam um jogo como pretexto: “Cap ou pas cap?”. Quem detém a caixa de música pode lançar um desafio ao outro. Se o desafio for superado, a caixa muda de mãos e quem a recebe pode, por sua vez, propor um novo desafio.

Sophie e Julien definiram as regras de um jogo onde são árbitros, vencedores e vencidos, simultaneamente. Sendo capazes do melhor e do pior, desafiam todos os tabus, as autoridades, as regras. Riem-se e magoam-se, numa cumplicidade que só eles entendem. Cada vez que jogam dizem que são capazes de fazer tudo o que o outro pedir, sem duvidar. Cada vez que dizem “Cap” estão a dizer que se amam, sem o saber, ou o conseguir dizer de outra forma. E este jogo prolonga-se pela vida, aumentando de intensidade, e com consequências cada vez mais desmedidas.

“Jeux d’Enfants” estimula o pensamento, agita as emoções, faz-nos entrar num sonho. Questiona as nossas certezas, obrigando-nos a ver a vida segundo um novo ponto de vista. O amor aparece aqui, perante meu constrangimento e negação, como egoísta, cruel, ciumento. O amor de Sophie (Cotillard) e Julien (Canet) é um jogo, que quebra promessas, os põe em perigo dando o controle ao outro, isola-os da sua família, magoa os que os rodeiam, fá-los odiar. Ajuda-os a desafiar tudo e todos, sem culpa, mas é um mito que os deixa para sempre aquém, insatisfeitos.

Samuell começou a sua carreira na ilustração, o que vem sem dúvida marcar o universo visual deste filme. As cores carregadas e a atmosfera sofisticada lembram o “Amélie Poulain”, de Jean-Pierre Jeunet. Samuell desenhou todo o storyboard e teve de ilustrar quase todos os cenários para mostrar aquilo que pretendia. A energia da sua realização disputa a da paixão dos dois protagonistas (a química entre Canet e Cotillard é inequívoca).

La vie en rose em quatro diferentes versões (Louis Armstrong, Donna Summer, Trio Esperanza e Zazie) empresta ainda mais mística a esta inteligente mistura de poema onírico com dura realidade. Imperdível!


Fonte

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Por que é que o mundo é construído de forma tão solta?

– Com licença. Diga, conhece um inseto chamado “Efêmera”? A efêmera morre um ou dois dias após dar à luz. Então, seu corpo está vazio, sem estômago ou intestino. No lugar deles está cheio de ovos. É uma criatura que nasce apenas para dar à luz. Humanos não são muito diferentes. Não faz sentido..
– Sou vazia também…
– Uma maravilhosa coincidência. Sou igual. Sou todo vazio.
– Fico pensando se há outros.
– Atualmente, todos são.
– Todos?
– Sim, especialmente, aqueles que moram neste tipo de cidade.
– Você não é a única.
– Parece que a vida é construída de um modo que ninguém possa preenchê-la sozinho. Assim como não é o suficiente para as flores ter pistilos e estames, um inseto ou a brisa deve introduzir o pistilo ao estame. A vida contém sua própria ausência, que apenas um Outro pode preenchê-la. Parece que o mundo é o somatório dos Outros. E, ainda assim, não sabemos e nem nos é dito que preencheremos uns aos outros. Levamos nossas vidas dispersas, perfeitamente inconscientes dos outros…Ou, de vez em quando, é permitido encontrar a desagradável presença do Outro. Por que é que o mundo é construído de forma tão solta?

Diálogo entre uma boneca inflável e um velho sábio sentados num banco de praça, do filme “Air Doll” (2008)

Aí vem ela.

Agora a claridade. Detesto a claridade. Aí vem ela. É preciso baixar-me. A claridade convida a sair. É melhor esperar. Ignorar. Fechar os olhos. Assim, isso. Os olhos fechados. Não serei apanhado pela luz. Mas mesmo assim. Sinto uma intensidade. Doí-me. A luz doí-me. Se vês dói. Se não vês também. É uma armadilha. A luz é uma armadilha.

Gonçalo M. Tavares

Tudo pode dar certo.

“É por isso que não me canso de dizer,
qualquer amor que possa receber e dar,
qualquer felicidade
que possa se apropriar ou fornecer,
cada breve gesto gentil,
tudo pode dar certo.
E que ninguém se engane, nem tudo
depende da genialidade humana.
A maior parte de sua existência
é mais sorte do que gostaria de admitir”.

Boris, personagem de “Whatever Works“, filme de Woody Allen.

Ajustes.

“Sou humano.
Tenho milhares de falhas.
Eu quebro, me levanto, ou não.
Eu me perco.
Cometo os mesmos erros de sempre.
Tenho machucados e cicatrizes.
Quando não consigo aguentar mais, eu bebo.
Não podem me consertar”.

Fala do personagem “6“, da série “The Prisoner“.

Adiante.

Quando nada parece ajudar, eu vou e olho o cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem vezes sem que nem uma só rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas, e sei que não foi aquela a que conseguiu, mas todas as que vieram antes.

Riis