Complicação.

Não sei porque o mundo se tornou essa complicação. Não sei se o mundo devia ter ficado assim. Tudo é complicado, difícil, confuso. No passado, havia campos com vacas, galinhas. Tudo era mais simples, creio eu. Havia uma relação direta com as coisas.

Do filme “Albergue Espanhol”.

O meu segredo.

Revelar meu segredo? Não, por certo;
Talvez quem sabe, um dia em breve.
Mas hoje não; tombou geada e neve.
Se a curiosidade te hei desperto
E sem pudor o queres ouvir, pois bem:
O segredo é meu, não conto a ninguém.

Talvez nem haja nada que contar:
Imagina afinal que não há segredo,
Era só a brincar.
Hoje está frio, é um dia azedo
Em que faz falta uma roupa abafada,
Um xaile e mantas que nos aqueçam;
Não posso abrir a todos quantos peçam,
Deixar o vento entrar-me de rajada,
Rodear-me, cercar-me,
Aturdir-me, assustar-me,
Enregelar-me sob este disfarce
Que me aconchega;
Pois quem quer desnudar-se
Ao vento frio que o há-de fustigar?
Não me fustigarias? Obrigada,
Mas deixa essa verdade inda velada.

É bela a Primavera; todavia
Não confio em Março com seus tremores,
Nem em Abril co’a breve chuva fria,
Muito menos em Maio cujas flores
Murcham co’a geada da noite sombria.

Talvez num dia lânguido de Estio,
Quando o sol faz as árvores dormitar
E se cobre de ouro a loura espiga,
Com fresca brisa mas sem nenhum frio
E o vento muito manso a soprar;
Talvez o meu segredo eu te diga,
Ou tu possas adivinhar.

Christina Georgina Rossetti,
tradução de Margarida Vale de Gato

A saúde mental.

A saúde mental é antes de tudo o bem-estar que uma pessoa pode sentir em sua vida em geral, nas suas relações com os outros e em seu ambiente; é a capacidade que ela tem de se adaptar às condições mutantes de seu ambiente sem perder sua identidade; a saúde mental implica a capacidade de enfrentar as dificuldades e as provações da vida e a possibilidade de sair dessas experiências mais forte do que antes.

Estelle Morin e Caroline Aubé, Psicologia e Gestão (Atlas), pg 15.

Nalgum lugar em que eu nunca estive.

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas