Campos de Carvalho [updated]

O que me resta a fazer é não fazer nada, como sempre, e esperar que as horas escoem lentamente e que o meu corpo durma antes de mim, ao peso do cansaço e da mais absoluta monotonia. Deitar-me-ei como um faquir sobre os espinhos do meu leito – bela imagem, sem dúvida – apagarei a luz, rezarei um padre-nosso (eu que não creio em Deus nem creio que ele possa crer em mim) e fingirei de morto por algum tempo, só respirando e deixando que me bata o coração, por via das dúvidas. No escuro a noite é completamente escura, como o podem atestar todos os insones da terra, e o jeito que resta é a gente esperar que, mesmo com chuva, a alvorada volte a raiar no vidro da janela, e com ela de novo as esperanças e as idéias felizes, que são sempre as mesmas sempre, apesar de todas as decepções ou talvez por isso mesmo.

Dou a minha verdade ao primeiro mendigo da esquina e sem que ele a peça, como a dou de bom grado a quem se mostre humano como eu e me trate como a um amigo; jamais, porém, a terão os que não confiem na minha sinceridade e usem de processos violentos para abrir-me a boca e os olhos, que são apenas os olhos e a boca do meu corpo, não da minha alma.

A liberdade aqui é uma palavra que já não existe nem sequer nos dicionários e de que só ouvimos falar quando somos nós que a pronunciamos, em geral em vós baixa e para nós mesmos.

Fui ao médico e ele me perguntou: O senhor tem fígado? Tinha, respondi, quando era criança; agora já nem sei mais. A vida me tem roubado tanta coisa!

Dai-me, eu vos peço, a receita de não chorar à toa sobre as mazelas e as incongruências deste mundo tão cotidiano, e de ver com olhos de cego, como vós fazeis, as aparentes belezas deste vasto cemitério sobre o qual caminhamos e que, de tão repleto de mortos, já está até cheirando mal, apesar da primavera que há no céu e nas flores. Dai-me a fórmula de sabedoria que me permita, aos quarenta anos – idade da minha imagem no espelho – contentar-me com o efêmero espetáculo do dinheiro e da mulher nua, e com os fugidios prazeres que nos podem advir do corpo ou do espírito, QUANDO sobre nossas cabeças paira, cada vez mais densa, a gigantesca sombra da morte, com a sua certeza que não admite sofismas nem tergiversações, pormais que a queiramos ignorar em nossos instantes de sono ou mesmo de vigília. Se a morte para a qual caminhamos a passos rápidos – e que ainda hoje pode colher-nos de surpresa, como nos colhe um raio em meio à tempestade – se essa morte é, cada dia mais, de minuto a minuto, a grande verdade contra a qual não prevalece nenhuma filosofia do homem nem tampouco seu incomensurável orgulho, dizei-me como e sobretudo por que devo eu ignorá-la com um sorriso nos lábios, como se este mundo fora o paraíso terrestre e não a terra deserta e sem caminho de que fala a Bíblia, livro que em tudo mais não merece grande crédito. Eu que sempre levei uma vida aventurosa, modéstia à parte, rindo-me de tudo e de todos sem pedir licença ao papa nem ao chefe de polícia, sempre fui no íntimo um pobre espantalho dentro da noite, mais triste do que o palhaço mais triste, com o riso da caveira à guisa de gargalhada. É que o meu riso, que a muitos parecia louco, era em verdade e apenas um pranto disfarçado, como só agora me dou conta de todo, em face desta lacrimorréia aparentemente absurda em que me afogo. Em suma: nada mais vos peço senão que afugenteis a morte da minha vista, já que não podeis afugentá-la das minhas costas, e que me deis o segredo desse filtro que vos faz tão tranqüilos e ao mesmo tempo tão vivos, mesmo com o cheiro de cadáver já exalando de vossas narinas. Dai-me, enfim, a arte de mentir a mim mesmo, eu que não sei mentir nem aos outros, e fazei com que eu pise sobre os mortos como se pisasse apenas sobre esqueletos antediluvianos, que não me dissessem respeito e muito menos desrespeito, dada a minha alta qualidade de ser imortal e indiferente aos abismos.

Todas as normas de educação que me tentaram impingir no cérebro tinham por objetivo convencer-me de que eu e o meu vizinho éramos feitos da mesma massa e conseqüentemente da mesma qualidade de alma, havendo mesmo alguns exagerados que chegavam a proclamar que ambos éramos filhos do mesmo pai celestial, a cuja imagem e semelhança havíamos sido feitos em nove meses; a experiência, porém, convenceu-me exatamente do contrário, e não foi preciso muito tempo para eu descobrir que não passava de um pequeno monstro dentro da minha espécie, de alguém que não se parecia nem sequer consigo mesmo nos diversos momentos e que já nascera fatalmente marcado para a solidão. E como eu não podia andar metido num escafandro todas as horas do dia, embora já tenha exercido a profissão de escafandrista na penúltima guerra, deu-se o entrechoque fatal entre a minha multidão de almas e a alminha dos meus pseudo-semelhantes, com conseqüentes ódios e ressentimentos de parte a parte, como ficou provado nas páginas de meu Diário íntimo e que um dia ainda serão publicadas. Nesse livro aparentemente triste, eu me situo na posição de antípoda de todos os seres com os quais vivo esbarrando-me pelas ruas ou mesmo dentro de casa – o que talvez em parte explique meu contínuo peregrinar pelos quatro cantos do mundo, à procura de outro pólo no qual certamente houvesse um outro antípoda à minha espera.

Alguns trechos do ótimo “A lua vem da Ásia“, do infelizmente esquecido,  Campos de Carvalho.

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De olhos bem fechados.

Imaginem um rapaz correndo de moto numa estrada secundária. O vento bate-lhe no rosto. O rapaz fecha os olhos e abre os braços como nos filmes, sentindo-se vivo e em plena comunhão com o universo. Não vê o caminhão irromper do cruzamento. Morre feliz. A felicidade é, quase sempre, uma irresponsabilidade, somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos.

Do livro “O Vendedor de Passados“, de José Eduardo Agualusa.

Inevitáveis.

Muitos acreditam que nenhum destino é determinado com antecedência, e que todas as histórias pessoais são essencialmente uma cadeia de coincidências. E, no entanto, mesmo os que assim pensam, muitas vezes chegam à conclusão, quando olham para trás, que acontecimentos vistos no passado como produto do acaso eram, na realidade, inevitáveis.

O CASTELO BRANCO, ORHAN PAMUK

Prazos.

Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Julio Cortázar, História de Cronocópios e de Famas.

Os Moinhos de Vento

 

As estórias são amargas. Não importa o grau de felicidade que caiba nelas. O protagonista sempre enfrenta um antagonista que faz da sua vida gato e sapato até que o narrador decida por um final feliz e politicamente correto e, convenhamos, por maior que seja a sua capacidade de criar reviravoltas, previsível. Você sabe que está diante de uma estória feliz e que neste cenário o bem deve triunfar. As histórias reais são amargas. Aliás, ainda mais amargas. Talvez seja por isso que precisamos tanto das estórias com finais felizes. É um modo de negarmos o óbvio: por mais que você se supere ou acredite fazer parte de uma geração de seres especiais, você não terá garantias especiais, nem privilégios especiais, seja lá o que isso signifique. Como acabamos por pensar assim, afinal? A vida continua exatamente onde sempre esteve! Bem diante das nossas caras! Quando meu pai faleceu eu levei um tiro. Um tiro certeiro bem no meio daquele lugar privilegiado que chamarei aqui de o pacote embrulhado com papel laminado e fitas coloridas onde estão guardadas as estórias e as histórias com finais felizes. O pacote saltou alto e rolou para bem longe. Um baita boom bem no meio da sua sórdida realidade criando uma cratera de algum bom senso. Sua história foi comum, mas não menos importante. De repente, depois de alguns anos sem um trabalho digno de menção, sua auto-estima virou um grãozinho de feijão que teimava em não virar uma plantinha. Meu pai fazia parte desta imensa massa de assalariados que já tem uma idade elevada e nenhum diploma pregado numa parede e que vive de oportunidades de trabalho informal. A aposentadoria não vinha. Os anos, alguns poucos, porém teimosos anos, simplesmente resistiam a somar a matemática de algum sossego. Aquele sossego dos finais felizes em que o herói volta para a sua Ítaca e senta-se no seu trono depois de uma longa jornada de aventuras carregadas de beleza irreal. Pensou na casa, o único bem. Vou vendê-la. Vou dar cabo desta aposentadoria de uma vez por todas. Passaram-se meses e quando o negócio finalmente havia sido acertado, uma inundação na cidade desfez o comércio. Meu pai não dormiu na primeira noite, nem nas trinta noites seguintes. Ficou na janela de sua arca esperando as águas amansarem uma revolta que ele não compreendia e a pomba da paz trazer de volta o ramo da esperança. Não conseguia comer e o coração que nunca fora forte, apesar do caráter, não resistiu. Teve um enfarto no meio da noite. A noite é feita destes mistérios em que adora sussurrar pesadelos enquanto todos sonhamos sonhos bons e sorrimos feito crianças amparadas pelo refúgio do quarto. Não tardou para estar sozinho em um hospital passando por exames e distante de todas aquelas pessoas que nos trazem algum conforto. Ninguém poderia entrar. Absolutamente ninguém. É nestes momentos que a câmera deveria dar um longo slow motion no olhar do meu pai. Nas coisas que via e naquelas que não conseguia enxergar. Nas memórias que corriam feito cavalos sob o espelho d’água da sua retina. No horror de não estar em casa, dormindo, dormindo e sonhando com finais felizes e pacotes reluzentes com fitas coloridas. Mas eu menti até aqui sobre toda esta história de finais infelizes. Escritores precisam de frases feitas e generalistas. É assim que criam suas verdades provisórias, aquelas que manterão a integridade das estórias que contam. Menti porque não consigo envolver a vida que é sonho com a vida que é o que ela sempre foi, uma caixa sem mistérios por guardar. No meio da noite, quando médicos e enfermeiros tiveram o seu momento de repouso naquilo que era para eles uma noite calma – afinal eles precisam destes intervalos, mesmo sabendo que os doentes jamais descansam – meu pai se ergueu da cama e pôs as próprias calças e os sapatos e abotoou a camisa e possivelmente fez tudo isso com uma certa calma de quem não consegue pensar muito além dos sapatos que precisam ser amarrados e do caminho a ser feito a seguir. Passou por um segurança ou dois do hospital, desceu rampas evitando elevadores, viu e ouviu coisas sem ver e sem ouvir, e procurou a porta de saída e chegando nela tirou do bolso o celular e ligou para o filho dizendo algo assim, “oi garoto, eu estou bem, recebi alta, está tudo bem, venha me buscar, está bem?”. É aqui que todos nos deparamos com a nossa real solidão. É nesta espera e nenhuma das outras que a vida nos obriga. No caminho até a casa, um caminho absurdamente curto, porque meu pai morava então próximo ao hospital regional que atende a cidade e arredores, no caminho até a casa ele teve mais três enfartos e um único pensamento, chegar até a cama de minha mãe. Fez isso se arrastando ao adentrar a estranha casa que ia se apagando aos pouquinhos apesar do esforço do filho, o corpo pesava demais, apesar da magreza e da idade. A casa que nunca o quis, aumentava distâncias, tornava objetos irreais em que não havia aonde se apoiar, mas havia a porta e o quarto aonde minha mãe fazia a vigília. Ao lado dela meu pai expirou. Tinha passado a noite anterior falando de quanto a amara e como foram felizes nos quarenta e quatro anos que passaram juntos. Enquanto ela o abraçava aos gritos com o filho, a nora e o neto de duas semanas ao lado da cama, meu pai deixava cair no chão o seu pacote de papel laminado e fitas coloridas. A sua história estava acabada. Era ela todinha feita de uma amargura bonita que por mais que a gente se esforce, não dá pra entender. Da cama do hospital até a cama ao lado de minha mãe, meu pai foi derrubando pelo caminho inúmeros gigantes na forma de moinhos de vento.