Razões para ler

O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre o seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivências entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade.

 

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Daniel Pennac, Como um Romance (Rocco)

Sêneca

Deve-se misturar e alternar a solidão e a comunicação. Aquela nos incutirá o desejo do convívio social, esta, o desejo de nós mesmos; e uma será o remédio da outra: a solidão curará nossa aversão à multidão, a multidão, nosso tédio à solidão.

 

Sêneca, Sobre a Tranquilidade da Alma (Nova Alexandria, 2001, pg. 69)

Clémence

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Agora, Antoine, retomemos a partir do momento em que você dizia que eu sou fantástica.
– Eu dizia que você é severa.
– Você é muitíssimo injusto. Você não sabe julgar?
– Eu tento, mas é difícil.
– A minha teoria é que se pode compreender e julgar. A gente julga justamente para se defender, porque quem tenta compreender a gente? Quem compreende os que tentam compreender?
– Lacenaire dizia que os únicos que estão capacitados para julgar são os condenados.
– Então, se é assim, nós somos os condenados – disse Clémence abrindo os braços. – Eu sempre fui condenada, desde pequena fui julgada com sentenças silenciosas. É bonito o que eu disse, não?

Martin Page, Como me tornei estúpido (Rocco)

Versos

Las raíces de los árboles – con agua del cielo sueñan.
17-III-28, Miguel de Unamuno

Unamuno foi e sempre será uma das maiores alegrias da minha vida, sempre me dizendo o que eu precisava ouvir, exatamente do único modo que poderia ser dito…