Quer saber?

Todo mundo sabe disso, todos. Sabe o que acontece com você quando você tem um coração verdadeiro – daquele tipo que sofre, luta, insiste, descobre uma paciência que nem sabia que tinha e enlouquece por amor? – sabe o que acontece? Você sofre. Independente da natureza da alegria e da felicidade. Você sofre muito. E não esconda isso dos seus filhos, das pessoas que você ama e muito menos de você. Você sofre, porque amar não é coisa simples, logo, não trate o amor com simplicidade e muito menos de forma simplista porque amar é coisa séria. E quer saber mais? Vale a pena. Vale muito a pena. Ou, como diz naquele filme com a Julia Roberts, “dê uma chance para o amor novamente!”. Sabe o que eu penso sobre isso? Que você não é nada sem ele. E só quem ama MUITO sabe o porquê. Porque você não acumula nada na vida que valha a pena além de EXPERIÊNCIAS DE AMOR. SÃO ELAS QUE VÃO SALVAR A SUA ALMA. Não importa o que digam a você.  E elas não vão durar para sempre. Mas vão valer muito a pena porque todas as pessoas que você puder amar vão valer a pena, não interessa a conclusão. Mas nunca, NUNCA, finja ser algo que você não é. O amor começa e termina exatamente no que somos. Sem tirar nem por.

Bêbado e cansado. Mas, foda-se, queridos. 😉

Anúncios

A luta para não morrer e a luta para viver.

Há uma profunda diferença entre a luta para não morrer e a luta para viver. Os homens que lutam para não morrer conservam a sua dignidade, defendem-se ciosamente – todos: homens, mulheres, crianças – , com feroz obstinação. Os homens não dobravam a cerviz. Fugiam para as montanhas, para as florestas, viviam nas cavernas, lutavam como lobos contra os invasores. Lutavam para não morrer. Era uma luta nobre, digna, leal. As mulheres não lançavam o corpo no mercado negro para comprarem bâton, meias de seda, cigarros ou pão. Sofriam a fome, mas não se vendiam. Não vendiam os seus homens ao inimigo. Antes queriam ver os próprios filhos morrer de fome do que venderem-se, que venderem os seus homens. Somente as prostitutas se vendiam ao inimigo. Os povos da Europa, antes da libertação, sofriam com maravilhosa dignidade. Lutavam de cabeça erguida. Lutavam para não morrer. E os homens, quando lutam para não morrer, agarram-se com a força do desespero a tudo o que constitui a parte viva, eterna, da vida humana, a essência, o elemento mais nobre e mais puro da vida: a dignidade, o orgulho, a liberdade da própria consciência. Lutam para salvar a alma.

Mas depois da libertação os homens tiveram de lutar para viver. É uma coisa humilhante, horrível, é uma necessidade vergonhosa lutar para viver. Só para viver. Só para salvar a própria pele. já não é a luta contra a escravidão, a luta pela liberdade, pela dignidade humana, pela honra. É a luta contra a fome, é a luta por um pedaço de pão, por um pouco de lume, por um farrapo para cobrir os filhos, por um pouco de palha onde estender o corpo. Quando os homens lutam para viver, tudo, até uma panela vazia, uma ponta de cigarro, uma casca de laranja, uma côdea de pão seco apanhado no lixo, um osso esburgado, tudo tem para eles um valor enorme, decisivo. Os homens são capazes de todas as velhacarias para viver; de todas as infâmias, de todos os crimes, para viver. Por um pedaço de pão, cada um de nós está pronto a vender a própria mulher, as filhas, a macular a própria mãe, a vender os irmãos e os amigos, a prostituir-se a um outro homem. Está pronto a ajoelhar-se, a arrastar-se pelo chão, a lamber os sapatos de quem pode matar-lhe a fome, a dobrar a cerviz sob o chicote, a limpar, sorrindo, a face onde lhe escarraram. E tem um sorriso humilde, doce, um olhar cheio de uma esperança famélica, bestial, uma esperança espantosa.

Curzio Malaparte, “A Pele“.

Do ótimo blog da livraria lusitana “Trama

Arte

A memória é uma ação.

Virgile sempre acreditara que a memória fosse uma função, mas agora tomava consciência de que ela era uma ação. Havia muita coisa que ele não tinha registrado, como se tivesse recortado a realidade com uma tesoura para lhe dar a forma que lhe conviesse. Fora uma maneira de tornar o mundo mais confortável e de justificar as suas escolhas.

Martin Page, Talvez uma História de Amor (Rocco, p. 129)

a tranquilizadora perpetuação das mesmas coisas de sempre.

Fatalmente, chega um momento em que cada um, em um grupo, ocupa um lugar. Virgile era o sujeito sarcástico e fantasioso. Seus amigos estavam acostumados com a sua depressão crônica e com o espetáculo anual de seus amores tragicômicos. Ele desempenhara esse papel para ser aceito e amado, cercado de gente e compreendido, a fim de contribuir para a tranquilizadora perpetuação das mesmas coisas de sempre. Seus amigos também representavam os seus papéis na peça, sem questionar o texto nem o personagem. Por que eles não sumiam um pouco, meu Deus? Será que não viam que tornar-se um fantasma era a melhor maneira de existir? Virgile tinha vontade de ficar ali no telhado e ser recolhido por uma daquelas nuvens que se aproximavam vindas do horizonte. (…)

Como não podemos ser felizes nem renunciar a sê-lo, ele havia, bem antes, tomado a decisão, para evitar qualquer sofrimento, de não se fazer notar, de não se mover. Mas esse tempo chegara ao fim. Ele ia mudar alguma coisa em sua vida, não sabia ainda o quê, mas começaria a agir.

Martin Page, Talvez uma História de Amor (Rocco)

Ambição.

Virgile foi para a sala de criação. O recinto era dotado de uma grande janela com vitrais multicoloridos. Virgile sentou-se à mesa central, pegou uma folha e armou-se de uma Bic esferográfica laranja de tinta preta. Anotou uma série de palavras e depois apoiou o queixo nas mãos cruzadas. Sempre que sua mente se focava no trabalho, ele se sentia bem. Sua vida tinha dado giros demais, a volta à estabilidade se tornara uma necessidade. Trabalhava por causa da sensação que tinha durante o esforço realizado. E unicamente por isso. Não queria subir na hierarquia. Não achava isso absurdo nem condenável, simplesmente não era do seu estilo.

Passara a vida toda tentando não chamar a atenção. Era uma questão de sobrevivência. Chamar a atenção implica dois tipos de perigo: expomo-nos aos golpes e ao esquecimento. Mais prudente é manter-se em um claro-escuro sem glórias.

Virgile pensava muito em Marco Aurélio. Quando este venceu a batalha contra os bárbaros do Danúbio que ameaçavam Roma, não foi a felicidade que o fizera submergir, mas sim o desespero. A vitória não é algo reconfortante. Virgile estava convencido disso: na vida, é preciso se esforçar ao mesmo tempo para não perder e para não ganhar. O exercício é delicado, já que os dois polos têm alto poder de atração.

Martin Page, Talvez uma História de Amor (Rocco, pp. 46-7)

Como faz a areia.

E por um instante somos a areia que a brisa sopra pela praia, só um grão de areia entre os bilhões de grãos que são soprados. Como é bom ser irrelevante. Como é agradável saber que não há nada a fazer. Como é doce simplesmente voltar a dormir, como faz a areia, até o vento resolver acordá-la outra vez.

Do romance “Pequena Abelha“, de Chris Cleave (Intrínseca, pg. 260)