Estrela

Escutai! Se as estrelas se acendem
será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando
a mão fibrosa.
Implora! Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!
Jura! Que não poderia mais suportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
“Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Não tens mais medo, hein?

“Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.

MAIAKÓVSKI  em tradução de E. Carrera Guerra

No ventre de um raio.

Imagem

Vivemos num mundo fechado e mesquinho. Não sentimos o mundo em que vivemos tal como não sentimos a roupa que trazemos vestida. Voamos pelo mundo como as personagens de Júlio Verne através do espaço cósmico no ventre de um raio. Mas o nosso raio não tem janelas.

Os pitagóricos afirmavam que não ouvimos a música das esferas porque toca incessantemente. Aqueles que vivem perto do mar não ouvem o rumor das ondas, mas nós nem sequer ouvimos as palavras que pronunciamos. Falamos uma miserável linguagem de palavras não assumidas. Olhamo-nos na cara e não nos vemos.

As imagens não são janelas que dão para outro mundo, são objeto do nosso mundo.

Viktor Sklovski
Literatura e Cinema, 1923