Eu não gosto de palhaços!

Ah, os palhaços! O mundo está cheio deles! E eles não nos fazem rir. Mas têm o talento de tornar o mundo mais feio e triste. Por isso pintam uma lágrima no canto esquerdo do olho, caminho para o coração. Nem precisava!

 

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Procura-se um emprego inusitado.

Procura-se um emprego inusitado. Não interessa o primeiro milhão, mas a bilionésima batida de um coração satisfeito com o único tempo que teve para pôr a venda. Se este tempo for digno daquilo que o melhor da humanidade pôs em mim, eu hei de ser o seu escravo liberto. A qualidade dos serviços prestados está em meus olhos e em minhas mãos. Pois nada mais são do que a exata medida dos extremos de um homem. É fácil saber reconhecê-lo, desde que o contratante saiba o que lhe enche os próprios olhos e com o que se ocupam as próprias mãos. O resto é facilmente negociável, por falta de palavra menos indigna, conforme os ditames do mundo como ele é. Para contato com este flanêur (não lhe soa bem a palavra?) usar a palavra-chave IMAGINAÇÃO. É dela que nasce uma nova sociedade e um novo mundo de relações e trocas sociais. Não escolhemos o que somos tanto quanto sonhamos, e além da função social do trabalho, menos importante, a meu ver, a vida parcialmente produtiva, é uma longa e aborrecida espera, citando um grande amigo livresco. Subverta você também as relações empregatícias. É porque você e eu as criamos que não dormimos bem a noite. O mundo não é feito de boas pessoas, mas de bons negócios? Os negócios não deveriam estar ao lado dos interesses da coletividade de modo a que todos nós criássemos uma sociedade mais justa e socialmente aceitável? Você deve estar pensando que eu tenho 15 anos, não é? Bom. Eu não tenho. E estou falando sério. E você sabe exatamente em que pontos a vida em si fala por mim – e penso eu, fala por você também. Interessados mandar carta escrita à mão e registrada para o endereço a ser observado nestas paragens. Mais e melhores boas pessoas trabalhando para você, digo, bons negócios!

Att.

Você sabe quem.

Quer saber?

Todo mundo sabe disso, todos. Sabe o que acontece com você quando você tem um coração verdadeiro – daquele tipo que sofre, luta, insiste, descobre uma paciência que nem sabia que tinha e enlouquece por amor? – sabe o que acontece? Você sofre. Independente da natureza da alegria e da felicidade. Você sofre muito. E não esconda isso dos seus filhos, das pessoas que você ama e muito menos de você. Você sofre, porque amar não é coisa simples, logo, não trate o amor com simplicidade e muito menos de forma simplista porque amar é coisa séria. E quer saber mais? Vale a pena. Vale muito a pena. Ou, como diz naquele filme com a Julia Roberts, “dê uma chance para o amor novamente!”. Sabe o que eu penso sobre isso? Que você não é nada sem ele. E só quem ama MUITO sabe o porquê. Porque você não acumula nada na vida que valha a pena além de EXPERIÊNCIAS DE AMOR. SÃO ELAS QUE VÃO SALVAR A SUA ALMA. Não importa o que digam a você.  E elas não vão durar para sempre. Mas vão valer muito a pena porque todas as pessoas que você puder amar vão valer a pena, não interessa a conclusão. Mas nunca, NUNCA, finja ser algo que você não é. O amor começa e termina exatamente no que somos. Sem tirar nem por.

Bêbado e cansado. Mas, foda-se, queridos. 😉

Velho pai.

Hoje é um dia triste. Entre todos nós o meu avô materno não mais existe. A maioria de vocês não o conheceram, nem a sua história, nem a sua visão de mundo, se é que a tinha, nem no que estava pensando ao abrir as janelas da antiga casa, coisa das mais importantes, quando se desperta. Eu sei que o meu avô materno, ao se despedir, abriu a sua janela e despertou para um outro lado da vida, seja este qual for. Não será mais de dor. Nem de olhos nos olhos.

Continuamos nós aqui, seja aqui onde for, por tempo que não se sabe, tentando ser melhores e enxergar tudo o que for possível pelo TEMPO que destes para cada um de teus filhos na forma de VIDA. Te agradeço por tudo velho pai. E apenas mais um abraço seria formidável, mas este lugar em que vivemos é dos mais caprichosos. Vai com Deus, conforme tua fé. Que a tristeza vire saudade e a saudade vire alegria.

A arte da negação.

we_are_a_negation_by_LuiNahtzi

“We are a negation”
Artista: LuiNahtzi

Eu não troco um bêbado por um sóbrio, mesmo que um sóbrio esteja bêbado, eu não troco um doido por um sujeito todo bem informadinho, atualizadinho e dentro da última modinha, eu não troco um doido, aliás, por nada nesta vida, eu não troco uma puta por uma moça de família cheia de fantasias tão de acordo com a última moda nos salões das velharias, eu não troco a selva africana pela tua estradinha cercada de flores amarelas, eu não troco a minha guimba de cigarro pelo teu gel no cabelo, nem a minha última peça de roupa amassada por esse teu sorriso besta, eu não troco a minha falta de vontade pela tua ambição, nem as minhas pernas frágeis pela tua academia, eu não troco o beijo de minha mãe doente por teus beijos dados na tua última baladinha, em dezenas de menininhas todas tão lascivas e afetadinhas, eu não troco a tua boça de machão pelo meu amor pelas mulheres, e eu não troco a minha ignorância pela tua esperteza e safadeza, nem meus dois únicos amigos pelas tuas duas ou três contas no orkut, facebook, o escambau, lotadas e vazias, eu não troco a minha falta de jeito, pela tua habilidade com futebol, basquetebol, sinuca, poker e jogo do palitinho, tudo aquilo que te faz esquecer que perder é o maior aprendizado que se pode ter e que perder de propósito é ainda mais interessante e alucinante, quando então a gente simplesmente para pra pensar e vê o quanto tudo pode ser tão besta e sem propósito, e eu não troco a minha raiva pela tua educação, polidez, diplomacia, nem a minha busca de sentido pela tua última teoria, eu não troco o futuro que eu não vou ter, pela tua casa própria, por tuas viagens, por teu guarda-roupa com a última coleção, datada, eu quero este instante, na forma como ele é, problemático, caótico, desastrado, sem planejamento nenhum, descuidado, deprimente, consciente, sensível, inesperado e indescritível, e não troco o desastre que foi minha educação por tua MBA na FGV, eu quero o meu idioma fora de toda cartilha, o meu pensamento fora de todo esquema, a minha curiosidade no cimo das árvores, longe dos homens, longe da cidade, e mais próxima do que for, desde que seja qualquer outra coisa, eu não troco estas mãos por tudo o que apenas elas tocaram, nem estes olhos pelo que não souberam enxergar, nem este coração envelhecido, nem as sobras do meu fígado, nem as sobras do meu prato, nem o meu prato que é de papel, e ainda menos a fome com que a vida me ensinou a arte da negação.

Amar é.

e se eu fizesse
todas as escolhas
erradas
ou a única escolha
certa
possível
tu ainda assim
me amarias?
e se eu partisse
e indo embora
a cada passo dado
para largar-me ao mundo
ainda mais que nunca
para longe de mim
e isso me fizesse algo de bom
algo de bem
algo que há tempos não sinto
tu ainda assim
me amarias?
e se a memória me levasse
e se a raiva me levasse
e se a saudade fosse tanta
e me levasse
para um canto incompreensível
das coisas que se sente
quando se está só
tu me amarias?
e se eu me conter
para dizer
novamente
que o amor é injusto
que a dor é injusta
que a história que contamos
é injusta
e o trabalho que nos ocupa
todo santo dia
é injusto
tu me amarias?
tu me amarias?
se eu me perdesse
se eu não me achasse
se eu não encontrasse saída
para o certo e o incerto em mim
se eu causasse o maior estrago
se eu fizesse o escândalo maior do mundo
se eu não pudesse mais parar por um único
segundo
tu me amarias?
e se eu fosse fraco?
e se eu fosse fútil?
e se eu não tivesse dinheiro nenhum?
nem empregos
nem a vontade de participar
do que fosse
e se eu fosse sujo
ríspido
roto
gasto
assustado
apavorado
amedrontado
e estivesse encolhendo
encolhido
por dentro
tudo isso
por dentro
tão diferente
do por fora
tu me amarias?
e se eu não achasse o caminho da volta?
e se eu não soubesse nada a respeito do que eu vejo no espelho?
e se eu nasci com a capacidade de jamais esquecer?
e se eu tiver vocação para me perder?
tu me amarias?
tu me amarias se
eu fosse tão velho quanto o tempo
ou infantil como a criança mais doce e ingênua
e se eu fosse apenas

humano

tu me amarias?
e se eu te amar para sempre
e te querer tão bem para sempre
e te desejar silenciosamente para sempre
e te enxergar
e te ver
e te perceber
e te notar
e te avistar
e tão simplesmente

nunca

mais

te

ter

tu me amarias?
tu me amarias
se eu deixar de existir
se eu deixar de perder as minhas coisas pelo caminho
se eu deixar de estar onde sempre estive
se eu deixar de ser qualquer coisa que se perceba
se eu deixar saudade nenhuma
tu me amarias?
tu me amarias pelas coisas que não pude ser
pelas que me cansaram
por aquelas que não pude compreender
pela raiva que senti
pela tristeza que senti
pela saudade que senti
e por ser como toda a gente deste mundo
inseguro
imprevisível
imaturo
tu me amarias?
tu me amarias se
eu te contasse que
toda a nossa vida em comum
cabe na palma de nossas mãos
e que ela haveria de voar um dia
para a liberdade de uma outra vida
só para não envelhecer?
tu me amarias?
tu me amarias
se as palavras me faltassem
se as palavras não me bastassem
se as palavras não estivessem mais
onde deveriam estar
ou se as palavras
juntas ou separadas
não significassem nada
desconexas
inexatas

não

tu não me amarias!

Capitão.

tem coisas que não é possível descrever
como o que se sente quando se deixa o lugar em que se viveu por tantos anos
ou um estado mórbido qualquer
há momentos em que se espera sem esperar nada
e isso não é algo simples de traduzir também
você pode se ocupar pelo tempo que for
na verdade não há nada como estar simplesmente
parado
enquanto tudo o que deveria acontecer no mundo à sua volta
não acontece
é como brincar de deus só que usando seus poderes
às avessas
em um tempo assim o tempo é em si outra coisa
e é como se seu coração se mantivesse congelado
enquanto todos os sentidos continuassem acumulando sensações
estar parado é deixar lugar nenhum
instante nenhum
é neste lugar que cada memória se apazigua
e nenhuma outra é capaz de se formar
é como não abandonar o navio
que afunda