De olhos bem fechados.

Imaginem um rapaz correndo de moto numa estrada secundária. O vento bate-lhe no rosto. O rapaz fecha os olhos e abre os braços como nos filmes, sentindo-se vivo e em plena comunhão com o universo. Não vê o caminhão irromper do cruzamento. Morre feliz. A felicidade é, quase sempre, uma irresponsabilidade, somos felizes durante os breves instantes em que fechamos os olhos.

Do livro “O Vendedor de Passados“, de José Eduardo Agualusa.

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Cecília.

 

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Quantas coisas pensei sublimes,
merecedoras de longas lágrimas !
Quais eram ?
As lágrimas recordo
e as pensativas planícies
por onde estenderam seus longos rios,
mas não levam nenhuma voz essas águas.
Tudo foi afogado e sepulto.
Maiores que as coisas choradas
eram as lágrimas que as choraram.
E sua imagem, de longe, é uma solidão sem mais nenhum sentido:
mapa falso que a nossa viagem abandona,
pois vamos sempre além de tudo, para mais longe.

Mapa falso
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Tanto que fazer !
Livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuvas,
e os mortos em redôma de cânfora.
( E uma canção tão bela ! )
Tanto que fazer !
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.

Humildade
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Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!

Dizei por que assim me fizestes,
vós todos a quem amaria,
mas não amarei, pois sois estes
que assim me deixastes, amarga,
sem asas, sem música e lágrimas,

assombrada, triste e severa
e com meu coração de pedra!

Oh, quanto me pesa
ver meu próprio amor que se quebra!
O amor que era mais forte e voava
mais que qualquer seta!

Coração de Pedra
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Dos campos do relativo
Escapei.
Se perguntam como vivo,
Que direi?

De um salto firme e tremendo,
– Tão de além!
– Chega-se onde estou vivendo
Sem ninguém.

Gostava de estar contigo:
mas fugi.
Hoje, o que sonho, consigo
Já sem ti.

Verei, como sempre ama,
Que te vais.
Não se volta, não se chama
Nunca mais.

Os campos do Relativo
Serão teus.
Se perguntam como vivo?
– De adeus.

Canções
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Via-se morrer o amor
de braços abertos

Uma espuma azul andava
nas areias desertas

Nos galhos frescos das árvores,
recentemente cortadas,
Meninas todas de branco
se balançavam
O eco partia o barulho
de suas risadas

Via-se morrer o amor
de mãos estendidas

Uma lua sem memória
pelas águas transparentes
arrastava seus vestidos

Via-se morrer o amor
de solidões cercado

Via-se e tinha-se pena
sem se poder fazer nada…

E era uma tarde de lua
com o vento pelas estradas
esquecidas

E ao longe riam-se as crianças
No princípio do mundo
no reino da infância

Desenho leve
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O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Canção do Amor-Perfeito
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Não te importes. Não te importes…

Na verdade, tu vens como eu te queria inventar:
e de braço dado desceremos por entre pedras e flores.
Posso levar-te ao colo, também,
pois na verdade estás mais leve que uma criança.

– Tanta terra deixaste porém sobre o meu peito!
irás dizendo, sem queixa,
apenas como recordação.

E eu, como recordação, te direi:
– Pesaria tanto quanto o coração que tiveste,
o coração que herdei?

Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos?

E hoje era o teu dia de festa
Meu presente é buscar-te:
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar, outrora.
Com menos palavras, apenas.
Com o mesmo número de lágrimas.
Foi lição tua chorar pouco,
para sofrer mais.

Aprendi-a demasiadamente.
Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
De calor silencioso.
Todas as estátuas ardendo.
As folhas, sem um tremor.

Não tens fala, nem movimento nem corpo.
E eu te reconheço.

Ah, mas a mim, a mim.
Quem sabe se me poderás reconhecer!

8
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Ah, falta o silêncio que estava entre nós,
e olhava a tarde, também.

Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto.
Igual à face da Natureza:
evidente, e sem definição.

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.
Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido.
Agora, tenho medo que não visses
o que havia por detrás dele.

Aqui está meu rosto verdadeiro,
defronte do crepúsculo que não alcançaste.
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.

7
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Para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
Para onde iriam, quando me escutavas?
E quando me escutaste? – Nunca.

Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!
Eu e tu perdemos tudo.
Suplicávamos o infinito.
Só nos deram o mundo.

De um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
E hoje, que barca te socorre?
Que deus te abraça? Com que deus lutas?

Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,
com as minhas perguntas.
Para quê? Para quê? Rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.

Monólogo
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O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo – e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce…
– espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
E alguém mata os personagens.)

Explicação
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Na quermesse da miséria,
fiz tudo o que não devia:
se os outros se riam, ficava séria;
se ficavam sérios, me ria.

(Talvez o mundo nascesse certo;
mas depois ficou errado.
Nem longe nem perto se encontra o culpado!)

De tanto querer ser boa,
misturei o céu com a terra,
e por uma coisa à toa
levei meus anjos à guerra.

Aos mudos de nascimento
fui perguntar minha sorte.
E dei minha vida, momento a momento,
por coisas da morte.

Pus caleidoscópio de estrêlas,
entre cegos de ambas as vistas.
Geometrias imprevistas,
quem se inclinou para vê-las?

(Talvez o mundo nascesse certo;
mas evadiu-se o culpado.
Deixo meu coração – aberto,
à porta do céu – fechado.)

Confissão

Não sabemos nada.

Não sabemos nada.
Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio de um cais frio.
Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltamos a enganar.

Amalia Bautista

Do ótimo A Dança dos Erros

A minha busca cega e secreta.

 

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
– nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio
e nesse silêncio profundo se esconde
minha imensa vontade de gritar

Dá-me a tua mão“, Clarice Lispector.

A Vida, segundo Roger Nygard.

“A outra coisa que temos de considerar é que talvez exista um Deus, mas que Ele não seja uma força benevolente. Se um avião cai e 300 pessoas são destruídas instantaneamente e alguém consegue sobreviver e diz: “É um milagre ter sobrevivido”. Isso não faz sentido para mim. – E os outros que morreram? Se Deus age assim, por que não impediu que o avião caísse? Mas esse seria um Deus arbitrário, você O temeria, mas não O amaria. Não posso lhe dizer nada a respeito de quem Deus seja ao menos que essa experiência aconteça com você. Eu gostaria de acreditar que Deus existe em cada boa ação. Encaro o conceito de Deus como um desafio, não como uma resposta”.

“Não duvido de Deus. Duvido dos Seus representantes. Até hoje, Deus não falou comigo. Somente o homem falou comigo, e, como sabemos, ele geralmente engana, mente e é motivado por outras coisas, além do desejo de transmitir a verdade”.

“Quando falava do meu projeto com meu vizinho, ele disse que os filhos já se indagavam sobre essas questões. Ele sugeriu entrevistá-los.

– O que ocorre quando morremos?
– Não há vida após a morte. Eis um segredo: não há céu ou inferno. Você morre. Boom. Morto. Como se tivesse uma venda nos olhos e não pudesse mais pensar. Pessoalmente, acho que é muito melhor que a felicidade eterna. Um mundo somente com felicidade é um mundo sem propósito. E me sentiria como uma marionete, controlada, não posso sentir dor, não posso sentir nada a não ser essa felicidade. Eu odiaria isso”.

“Se há uma vida após a morte, ela está no nosso coração. Isso é muito interessante. Não vamos a lugar algum. Este instante aqui e agora é muito precioso. Bem mais precioso do que se tivéssemos uma infinidade deles”.

“Às vezes as pessoas oram muito por um milagre e ele acontece. Um milagre significando algo muito improvável. Mas a verdade é que a coisa mais improvável seria se coisas improváveis não acontecessem”.

“O lado obscuro da crença de que os pensamentos significam algo são as pessoas que dizem: “Há pessoas passando fome em tal lugar, mas estou orando por elas.” Isso leva as pessoas a acreditar que orar pelos outros significa algo, que enviar bons pensamentos para o Universo significa algo. Isso não significa nada. Somente ações significam algo”.

“Por que os seres humanos desenvolvem a religião? Freud defendia que a religião era uma tentativa de recuperar a segurança da infância. Toda vez que a criança, um bebê, encontra-se numa posição de necessidade e chora, magicamente a mãe surge. A criança tem a ilusão de que foi ela quem fez com que aquela criatura surgisse. Isso acontece toda vez, milhares e milhares de vezes. Essas experiências repetidas de serem cuidadas quase que magicamente por essa criatura tão maravilhosamente empática, permanecem no inconsciente. Futuramente, quando adultos, nós nos encontramos em uma posição de necessidade, pedimos ajuda na forma de oração”.

“O argumento de que você tem de ser religioso ou acreditar em Deus para ser feliz é feito apenas por alguém em uma religião que sente que é a única forma de ele poder conseguir isso”.

“A religião é para quem acredita que irá para o inferno. A espiritualidade é para quem já esteve lá”.

“Você faz o bem porque sente prazer ao fazê-lo ou você está com medo de que se não o fizer, será punido. De qualquer forma, é servir a si mesmo”.

“A felicidade é subproduto de se ter propósito e sentido. Não é um objetivo”.

“Ninguém pode ser realmente feliz. Podemos ter momentos de felicidade, de alegria, mas a vida é muito difícil. A menos que sejamos completos idiotas, aí sim seremos felizes”.

“Se o seu apetite é muito grande, você sempre se sentirá insatisfeito. Assim, defendemos no Taoísmo, que devemos ficar contentes com nosso destino”.

“Ao aceitar o sofrimento, nós o superamos”.

“É bom ser importante, mas é muito mais importante ser bom”.

“Cada indivíduo deveria se esforçar para se satisfazer com o sentido da própria vida. Não com o sentido da vida”.

“Sinto que o sentido da minha vida está ligado as pessoas que conheço e ao que aprendi com elas. Por isso, decidi ampliar o meu círculo de contatos”.


Outras respostas interessantes ou curiosas do documentário “The Nature of Existence” (2010), de Roger Nygard.

Mas eu tenho.

Meu amigo Bobby Gaylor tem uma opinião a respeito de tudo que perguntam a ele.
– O que acha sobre a morte?
– Fui ao IML em Los Angeles. Numa pesquisa para um projeto. Quando entrei na cripta, estava cercado por 104 corpos. Estavam em macas. Não estavam nas gavetas. E o sentimento que pensava que fosse ter, no meio daqueles corpos, não foi o sentimento que tive. Fiquei cheio de esperança, pois, de repente, ocorreu-me que aquelas pessoas não tinham mais escolhas, mas eu tinha. Comecei a pensar: “Quando sair daqui, vou ligar para meu irmão. “Vou ligar para minha mãe. Sempre quis ir à Europa. “Vou marcar uma viagem.” E pelo resto daquele dia, tão rápido quanto estou falando agora, estava dominado por “ter escolhas”. Isso passou. Mas naquele dia, aquelas pessoas me lembraram que elas não tinham mais escolhas. Mas eu tinha.

Do documentário “The Nature of Existence”, de Roger Nygard (2010)