A memória é uma ação.

Virgile sempre acreditara que a memória fosse uma função, mas agora tomava consciência de que ela era uma ação. Havia muita coisa que ele não tinha registrado, como se tivesse recortado a realidade com uma tesoura para lhe dar a forma que lhe conviesse. Fora uma maneira de tornar o mundo mais confortável e de justificar as suas escolhas.

Martin Page, Talvez uma História de Amor (Rocco, p. 129)

Aqui, pensando…

 

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Eu queria saber para onde será que vão todas as coisas que a gente viu na vida, depois que a gente morre. E o que sentiu, para onde vai? O que a gente faz, eu entendo, fica aqui, neste mundo, como conseqüência de nossos atos. Mas e as coisas que apenas a gente viu e sentiu? Que fim terão?

Haverá em algum lugar no espaço-tempo um livrinho que seja, contendo, ao menos, parte das boas coisas que vimos e sentimos? E eu queria saber, sinceramente, de que modo a Vida irá se responsabilizar por tudo aquilo que acontece de bonito dentro do meu olhar!

Do olhar

Em geral os rostos, e os olhos em particular, me revelavam muita coisa. Vozes e palavras da mesma forma. Eu falava com um menino por alguns minutos e tinha certeza de saber quem ele era e o que podia esperar dele. Uma vez ouvira meu pai citar Maimônides: “Assim como os rostos humanos são diferentes, são diferentes seus pensamentos e opiniões”. Narizes, orelhas, lábios me revelavam segredos. Eu li em algum lugar que a alma espia pelos olhos, e fiquei atônito ao perceber quanta verdade havia nessas palavras. Havia olhos tolos, olhos inteligentes, olhos dissimulados, olhos cheios de bondade, olhos cheios de perversidade, olhos expressando pura alegria, olhos cheios de tristeza. Todos contavam histórias que eu não conseguia colocar em palavras. Como Deus podia ter criado tantos olhos, com tantas expressões diferentes?

 

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Isaac B. Singer, Amor e Exílio, Memórias (L&PM)

Idílico

Meu pai nasceu num lugarejo chamado Vila da Glória. Lá ele corria entre pastos enormes e extensas faixas de areia cor de chumbo. Vejo o menino correndo de calção puído e uma bola improvisada nos pés, o vento agridoce nos cabelos muito negros. Vejo o menino subindo nas goiabeiras e saltando no mar. O menino nadando pra longe, tão distante quanto este passado idílico que quase toco com a imaginação ligeira. O menino no meio do mato segurando uma funda, a mão coçando com a picada distraída dos mosquitos, os pés ora pisando vegetação rasteira, ora areia vinda de muito longe, e um bando de passarinhos fugindo entre a copa dos araçás. Vejo o menino sentado sobre a casca de uma árvore caída inteira e o olhar abandonado nas luzes de uma cidade vizinha, do outro lado do cais, tão longe, tão perto, repetindo solitariamente o sentimento de gerações inteiras. O menino que viu tempestades se formando no alto-mar, coração sereno. O menino que fugiu pra nunca mais, esperando do mundo um mundo ainda maior. O menino sem imaginação. Um menino só, parado no tempo, feito um menino. Entre os costões verdejantes e o mar luminoso ele envelhecia rapidamente sem atinar que no incógnito futuro um outro menino o procurava entre palavras e papéis, apesar do tempo irrecuperável.

 

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“Boy Running”, Pamela Murphy