Ambição.

Virgile foi para a sala de criação. O recinto era dotado de uma grande janela com vitrais multicoloridos. Virgile sentou-se à mesa central, pegou uma folha e armou-se de uma Bic esferográfica laranja de tinta preta. Anotou uma série de palavras e depois apoiou o queixo nas mãos cruzadas. Sempre que sua mente se focava no trabalho, ele se sentia bem. Sua vida tinha dado giros demais, a volta à estabilidade se tornara uma necessidade. Trabalhava por causa da sensação que tinha durante o esforço realizado. E unicamente por isso. Não queria subir na hierarquia. Não achava isso absurdo nem condenável, simplesmente não era do seu estilo.

Passara a vida toda tentando não chamar a atenção. Era uma questão de sobrevivência. Chamar a atenção implica dois tipos de perigo: expomo-nos aos golpes e ao esquecimento. Mais prudente é manter-se em um claro-escuro sem glórias.

Virgile pensava muito em Marco Aurélio. Quando este venceu a batalha contra os bárbaros do Danúbio que ameaçavam Roma, não foi a felicidade que o fizera submergir, mas sim o desespero. A vitória não é algo reconfortante. Virgile estava convencido disso: na vida, é preciso se esforçar ao mesmo tempo para não perder e para não ganhar. O exercício é delicado, já que os dois polos têm alto poder de atração.

Martin Page, Talvez uma História de Amor (Rocco, pp. 46-7)

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