Estrela

Escutai! Se as estrelas se acendem
será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando
a mão fibrosa.
Implora! Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!
Jura! Que não poderia mais suportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
“Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Não tens mais medo, hein?

“Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.

MAIAKÓVSKI  em tradução de E. Carrera Guerra

Acendedor de Lampiões

[Bob Barker, Lamplighter]

 

A escada pesa-lhe cada dia mais, e cada dia mais Quaquéo encontra dificuldade em trepar pelos já gastos degraus, com aquela perna mais curta que a outra.
Agora, quando já está nos últimos lampiões, nos becos mais íngremes, ao alto da colina, demora-se um bocado sobre a escada, como que debruçado, ou melhor, como que pendurado pelas axilas ao braço do lampião, com as mãos penduradas, a cabeça apoiada sobre um ombro; e, naquela postura de abandono, lá em cima, continua a meditar e a raciocinar consigo próprio.
Pensa em coisas tristes e estranhas.
Pensa, por exemplo, que as estrelas, por mais densas que sejam, certas noites, alargam-se, sim, e picam o céu, mas não chegam a iluminar a terra.
– Iluminação desperdiçada!
Mas que bela iluminação! E pensa que, uma noite, sonhou que cabia a ele acender toda aquela iluminação do céu, com uma escada de que não se via o fim, e que ele não sabia onde devesse apoiá-la, e cujas estacas lhe tremiam entre as mãos incapazes de suportar tamanho peso. E como faria para subir, ir para o alto, por aqueles infinitos degraus, até chegar às estrelas? Sonhos! Mas que angústia e que desnorteamento, no sonho!
Pensa que é mesmo triste aquela sua profissão, pelo menos para um acendedor de lampiões como ele, que já contraiu o péssimo hábito de raciocinar, ao acender os lampiões.
Mas será possível que também o ato material de produzir luz, onde há trevas, não desperte, com o tempo, mesmo no mais duro e escuro cérebro, certos lampejos de pensamento?
Quaquéo, certas noites, chegou até a pensar que ele, que faz a luz, faz também as sombras. Sim! Porque não se pode possuir uma coisa sem o seu contrário. Quem nasce morre. E a sombra é como a morte, que segue um corpo que caminha. Daí sua frase misteriosa, que parece uma ameaça gritada do alto da escada, no ato de acender o lampião, e que outra coisa não é senão a conclusão de um seu raciocionar.
– Espere aí, espere aí, que lhe prego a morte atrás!
Afinal, Quaquéo pensa que sua profissão possui uma certa importância de ordem superior porque repara uma falha da natureza, e que falta! Aquela da luz. Há pouco que falar: ele, para a sua aldeia, é o substituto do sol. São dois os substitutos: ele e a lua; e revezam-se. Quando há lua, ele descansa. E toda a importância de sua profissão surge manifesta naquelas noites em que a lua deveria estar presente e não está.
Como é belo ver, de longe, no meio das trevas da noite, aqui e acolá, alguma aldeia iluminada!
Quaquéo vê diversas, todas as noites, quando chega aos últimos lampiões do alto do morro, e queda-se a contemplá-los longamente, com as mãos pendidas do braço do lampião e a cabeça apoiada a um ombro, e suspira.
Sim, aquelas pequenas luzes, lá embaixo, qual uma multidão de vaga-lumes em congresso, clareiam penosamente e permanecem a noite inteira a velar, no lúgubre silêncio, ruelas sujas e íngremes e tocas de miséria, talvez piores do que aquelas de sua aldeia; mas é certo que, de longe, produzem uma bela vista, e expandem um suave e melancólico conforto no meio de tanta treva. Passa de tanto em tanto alguma rajada de vento, e todas aquelas luzinhas, lá agrupadas, hesitam e parece que elas também suspiram.
E, ao vê-las assim longe, fazem-no pensa que os pobres homens, perdidos como se encontram pela Terra, entre as trevas, estão reunidos, aqui e acolá, para dar-se um mútuo conforto e auxílio entre si; ao invés, nada disso, não é assim: se uma casa surge em um lugar, outra não aparece ali perto qual uma boa irmã, mas ali se estabelece qual uma inimiga, pode tirar-lhe a vista e o respiro; e os homens não se reúnem aqui e ali para viverem em companhia, mas se acampam uns contra os outros para se guerrearem. Ah, ele, Quaquéo, conhece bem essas coisas! E dentro de cada casa há guerra, entre aqueles mesmos que deveriam amar-se, e estar de acordo para se defenderem dos demais. Não é talvez sua esposa sua mais acérrima inimiga?
E se Quaquéo bebe, bebe por isso; bebe para não pensar em certas coisas, que o faziam desleixar-se dessas obrigações, de que se acha tão profundamente compenetrado. Mas é verdade que, afinal, todos nós temos tantas outras que não desejaríamos ter. Não desejaríamos tê-las, mas temo-las.
– Eh, rato velho!
Quaquéo dirige-se a um morcego. Chama-o de rato velho, porque se trata de um rato que criou asas. Outras vezes, dirige-se a algum gato que desliza rente ao muro e pára de repente, encolhido e oblíquo, a mirá-lo, ou a algum cachorro vagabundo e melancólico, que se põe a segui-lo de um lampião a outro, pelos altos becos desertos, e se deita à frente, debaixo de cada lampião, esperando que o acenda.

Trecho do conto “Certas Obrigações“, de Luigi Pirandello (Odisséia Editorial, trad. de Jacob Penteado). O copiei aqui, palavra por palavra, porque me parece condizente com estas luzes que brilham lá fora, nesta época do ano; pela beleza da tradução e da imaginação de Pirandello; além disso, porque eu mesmo me sinto um pouco Quaquéo. E talvez, quem sabe, você também. Cada um por suas razões.

Feliz Natal.

Tiene claramente algo que comunicar.

 

Esta noche, he estado muy atento al canto del gallo. Era tan sincero, tan lleno de entusiasmo, que me cuesta imaginar que no se dirija a nadie, que cante para él solo. Tiene claramente algo que comunicar, aunque su registro sea siempre el mismo y no parezca cambiar de fórmula. Es igual! Tanta convicción debe corresponder a alguna realidad y traducir algúne mensaje. No puedo creer que se trate de um simple ejercicio.

Cuaderno de Talamanca, Emil Cioran, da versão em espanhol (Pre-Textos).

e o meu peito adormece.

entra tão pouca luz no quarto,
o ocre antigo das paredes desliza pelo chão
e despe-se nas minhas pernas,

não sei se o sol nasce ou morre,
no meu corpo indecifrável
o mundo parte devagar

e os sons para trás acomodam-se no meu ouvido
como finos vapores húmidos,
sem dia, sem noite, apenas as horas ficam,

e o meu peito adormece.

Alma Kodiak

Do ótimo O Hálito Azul da Tarde, de Ana Isabel.