Frase.

Uma frase só existe quando é a extensão em letras da alma de quem a diz. É a soma das palavras e da tragédia que contém. Se não for assim, é só uma falsidade de vogais e de consoantes, um desperdício de som e de espaço.

Eliane Brum, do ótimo “A vida que ninguém vê“.

 

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De vulgari eloquentia.

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o “porquê”, o sim”,

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem se parar. Mesmo sem assunto.

Paulo Henriques Britto, do livro Macau

Minha mãe dizia que a fofoca é a rádio do Diabo.

– O que as pessoas disseram sobre o acontecido na cidade?
– Há dois lados para cada história.
– As pessoas dizem isso, mas não acreditam nisso. Pensam de um jeito e não querem saber de mais nada.
– É, Sr., acho que as pessoas têm tanto medo do que não conhecem que não sabem o que fazer para se sentirem melhor. Mas acho que não sabemos a verdade real sobre nada. Eu sei que não. Apenas suponho na maior parte do tempo.

Do filme Get Low (2009).

Meu coração está espantado.

Parece que chegou o instante de aceitar em cheio a misteriosa vida dos que um dia vão morrer. Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a raça humana em mim também cai. Aceitar-me plenamente? é uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto: meu coração está espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde circula sangue.

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações)

Qué decir y cómo?

Empiezo y vuelvo a empezar una carta, no avanzo, me atasco, qué decir y cómo? Ni siquiera sé ya a quien estaba dirigida. Sólo la pasión o el interés encuentran de inmediato el tono necesario. Por desgracia, el desapego es indiferencia para el lenguage, insesibilidad frente a las palabras. Ahora bien, al perder el contacto con las palabras, se pierde el contacto con los seres.

E. M. Cioran, Del Incoveniente de haber nacido (Taurus).

Os seus quês, os seus comos e os seus porquês.

As palavras têm os seus quês, os seus comos e os seus porquês. Algumas, solenes, interpelam-nos com ar pomposo, dando-se importância, como se estivessem destinadas a grandes coisas, e, vai-se ver, não eram mais que uma brisa leve que não conseguiria mover uma vela de moinho, outras, das comuns, das habituais, das de todos os dias, viriam a ter, afinal, consequências que ninguém se atreveria a prever, não tinham nascido para isso, e contudo abalaram o mundo.

José Saramago, Caim (Cia das Letras, pg. 52)