O meu segredo.

Revelar meu segredo? Não, por certo;
Talvez quem sabe, um dia em breve.
Mas hoje não; tombou geada e neve.
Se a curiosidade te hei desperto
E sem pudor o queres ouvir, pois bem:
O segredo é meu, não conto a ninguém.

Talvez nem haja nada que contar:
Imagina afinal que não há segredo,
Era só a brincar.
Hoje está frio, é um dia azedo
Em que faz falta uma roupa abafada,
Um xaile e mantas que nos aqueçam;
Não posso abrir a todos quantos peçam,
Deixar o vento entrar-me de rajada,
Rodear-me, cercar-me,
Aturdir-me, assustar-me,
Enregelar-me sob este disfarce
Que me aconchega;
Pois quem quer desnudar-se
Ao vento frio que o há-de fustigar?
Não me fustigarias? Obrigada,
Mas deixa essa verdade inda velada.

É bela a Primavera; todavia
Não confio em Março com seus tremores,
Nem em Abril co’a breve chuva fria,
Muito menos em Maio cujas flores
Murcham co’a geada da noite sombria.

Talvez num dia lânguido de Estio,
Quando o sol faz as árvores dormitar
E se cobre de ouro a loura espiga,
Com fresca brisa mas sem nenhum frio
E o vento muito manso a soprar;
Talvez o meu segredo eu te diga,
Ou tu possas adivinhar.

Christina Georgina Rossetti,
tradução de Margarida Vale de Gato

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