Frase.

Uma frase só existe quando é a extensão em letras da alma de quem a diz. É a soma das palavras e da tragédia que contém. Se não for assim, é só uma falsidade de vogais e de consoantes, um desperdício de som e de espaço.

Eliane Brum, do ótimo “A vida que ninguém vê“.

 

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O mar.

Esse mar é uma espécie de eternidade. Quando eu era criança, ele golpeava e golpeava. mas também já golpeava quando meu avô era criança, quando era criança o avô do meu avô. Uma presença móvel, porém sem vida. Uma presença de ondas escuras, insensíveis. Testemunha da história, testemunha inútil porque não sabe nada da história. E se o mar fosse Deus? Também uma testemunha insensível. Uma presença móvel, porém sem vida.

Do livro “A Trégua“, de Mario Benedetti.

Campos de Carvalho [updated]

O que me resta a fazer é não fazer nada, como sempre, e esperar que as horas escoem lentamente e que o meu corpo durma antes de mim, ao peso do cansaço e da mais absoluta monotonia. Deitar-me-ei como um faquir sobre os espinhos do meu leito – bela imagem, sem dúvida – apagarei a luz, rezarei um padre-nosso (eu que não creio em Deus nem creio que ele possa crer em mim) e fingirei de morto por algum tempo, só respirando e deixando que me bata o coração, por via das dúvidas. No escuro a noite é completamente escura, como o podem atestar todos os insones da terra, e o jeito que resta é a gente esperar que, mesmo com chuva, a alvorada volte a raiar no vidro da janela, e com ela de novo as esperanças e as idéias felizes, que são sempre as mesmas sempre, apesar de todas as decepções ou talvez por isso mesmo.

Dou a minha verdade ao primeiro mendigo da esquina e sem que ele a peça, como a dou de bom grado a quem se mostre humano como eu e me trate como a um amigo; jamais, porém, a terão os que não confiem na minha sinceridade e usem de processos violentos para abrir-me a boca e os olhos, que são apenas os olhos e a boca do meu corpo, não da minha alma.

A liberdade aqui é uma palavra que já não existe nem sequer nos dicionários e de que só ouvimos falar quando somos nós que a pronunciamos, em geral em vós baixa e para nós mesmos.

Fui ao médico e ele me perguntou: O senhor tem fígado? Tinha, respondi, quando era criança; agora já nem sei mais. A vida me tem roubado tanta coisa!

Dai-me, eu vos peço, a receita de não chorar à toa sobre as mazelas e as incongruências deste mundo tão cotidiano, e de ver com olhos de cego, como vós fazeis, as aparentes belezas deste vasto cemitério sobre o qual caminhamos e que, de tão repleto de mortos, já está até cheirando mal, apesar da primavera que há no céu e nas flores. Dai-me a fórmula de sabedoria que me permita, aos quarenta anos – idade da minha imagem no espelho – contentar-me com o efêmero espetáculo do dinheiro e da mulher nua, e com os fugidios prazeres que nos podem advir do corpo ou do espírito, QUANDO sobre nossas cabeças paira, cada vez mais densa, a gigantesca sombra da morte, com a sua certeza que não admite sofismas nem tergiversações, pormais que a queiramos ignorar em nossos instantes de sono ou mesmo de vigília. Se a morte para a qual caminhamos a passos rápidos – e que ainda hoje pode colher-nos de surpresa, como nos colhe um raio em meio à tempestade – se essa morte é, cada dia mais, de minuto a minuto, a grande verdade contra a qual não prevalece nenhuma filosofia do homem nem tampouco seu incomensurável orgulho, dizei-me como e sobretudo por que devo eu ignorá-la com um sorriso nos lábios, como se este mundo fora o paraíso terrestre e não a terra deserta e sem caminho de que fala a Bíblia, livro que em tudo mais não merece grande crédito. Eu que sempre levei uma vida aventurosa, modéstia à parte, rindo-me de tudo e de todos sem pedir licença ao papa nem ao chefe de polícia, sempre fui no íntimo um pobre espantalho dentro da noite, mais triste do que o palhaço mais triste, com o riso da caveira à guisa de gargalhada. É que o meu riso, que a muitos parecia louco, era em verdade e apenas um pranto disfarçado, como só agora me dou conta de todo, em face desta lacrimorréia aparentemente absurda em que me afogo. Em suma: nada mais vos peço senão que afugenteis a morte da minha vista, já que não podeis afugentá-la das minhas costas, e que me deis o segredo desse filtro que vos faz tão tranqüilos e ao mesmo tempo tão vivos, mesmo com o cheiro de cadáver já exalando de vossas narinas. Dai-me, enfim, a arte de mentir a mim mesmo, eu que não sei mentir nem aos outros, e fazei com que eu pise sobre os mortos como se pisasse apenas sobre esqueletos antediluvianos, que não me dissessem respeito e muito menos desrespeito, dada a minha alta qualidade de ser imortal e indiferente aos abismos.

Todas as normas de educação que me tentaram impingir no cérebro tinham por objetivo convencer-me de que eu e o meu vizinho éramos feitos da mesma massa e conseqüentemente da mesma qualidade de alma, havendo mesmo alguns exagerados que chegavam a proclamar que ambos éramos filhos do mesmo pai celestial, a cuja imagem e semelhança havíamos sido feitos em nove meses; a experiência, porém, convenceu-me exatamente do contrário, e não foi preciso muito tempo para eu descobrir que não passava de um pequeno monstro dentro da minha espécie, de alguém que não se parecia nem sequer consigo mesmo nos diversos momentos e que já nascera fatalmente marcado para a solidão. E como eu não podia andar metido num escafandro todas as horas do dia, embora já tenha exercido a profissão de escafandrista na penúltima guerra, deu-se o entrechoque fatal entre a minha multidão de almas e a alminha dos meus pseudo-semelhantes, com conseqüentes ódios e ressentimentos de parte a parte, como ficou provado nas páginas de meu Diário íntimo e que um dia ainda serão publicadas. Nesse livro aparentemente triste, eu me situo na posição de antípoda de todos os seres com os quais vivo esbarrando-me pelas ruas ou mesmo dentro de casa – o que talvez em parte explique meu contínuo peregrinar pelos quatro cantos do mundo, à procura de outro pólo no qual certamente houvesse um outro antípoda à minha espera.

Alguns trechos do ótimo “A lua vem da Ásia“, do infelizmente esquecido,  Campos de Carvalho.

Arturo Bandini.

Prologue to Ask The Dust by John Fante, 1990 – John Register


Arturo, meu rapaz. Meu querido Arturo. Parece que você sofre tanto e tão injustamente. Mas você é corajoso, Arturo. Você me lembra de um valoroso guerreiro com as cicatrizes de um milhão de conquistas. Que coragem a sua! Quanta nobreza! Quanta beleza! Ah, Arturo como você é realmente bonito! Eu o amo tanto, meu Arturo, meu grande e poderoso deus. Pode chorar agora, Arturo. Deixe suas lágrimas escorrerem, pois a sua é uma vida de luta, uma batalha amarga até o fim, e ninguém sabe disso a não ser você, ninguém exceto você, um belo guerreiro que combate sozinho, inflexível, um grande herói como o mundo jamais conheceu outro igual.

John Fante, O Caminho de Los Angeles (José Olympio, pg. 133).

Acendedor de Lampiões

[Bob Barker, Lamplighter]

 

A escada pesa-lhe cada dia mais, e cada dia mais Quaquéo encontra dificuldade em trepar pelos já gastos degraus, com aquela perna mais curta que a outra.
Agora, quando já está nos últimos lampiões, nos becos mais íngremes, ao alto da colina, demora-se um bocado sobre a escada, como que debruçado, ou melhor, como que pendurado pelas axilas ao braço do lampião, com as mãos penduradas, a cabeça apoiada sobre um ombro; e, naquela postura de abandono, lá em cima, continua a meditar e a raciocinar consigo próprio.
Pensa em coisas tristes e estranhas.
Pensa, por exemplo, que as estrelas, por mais densas que sejam, certas noites, alargam-se, sim, e picam o céu, mas não chegam a iluminar a terra.
– Iluminação desperdiçada!
Mas que bela iluminação! E pensa que, uma noite, sonhou que cabia a ele acender toda aquela iluminação do céu, com uma escada de que não se via o fim, e que ele não sabia onde devesse apoiá-la, e cujas estacas lhe tremiam entre as mãos incapazes de suportar tamanho peso. E como faria para subir, ir para o alto, por aqueles infinitos degraus, até chegar às estrelas? Sonhos! Mas que angústia e que desnorteamento, no sonho!
Pensa que é mesmo triste aquela sua profissão, pelo menos para um acendedor de lampiões como ele, que já contraiu o péssimo hábito de raciocinar, ao acender os lampiões.
Mas será possível que também o ato material de produzir luz, onde há trevas, não desperte, com o tempo, mesmo no mais duro e escuro cérebro, certos lampejos de pensamento?
Quaquéo, certas noites, chegou até a pensar que ele, que faz a luz, faz também as sombras. Sim! Porque não se pode possuir uma coisa sem o seu contrário. Quem nasce morre. E a sombra é como a morte, que segue um corpo que caminha. Daí sua frase misteriosa, que parece uma ameaça gritada do alto da escada, no ato de acender o lampião, e que outra coisa não é senão a conclusão de um seu raciocionar.
– Espere aí, espere aí, que lhe prego a morte atrás!
Afinal, Quaquéo pensa que sua profissão possui uma certa importância de ordem superior porque repara uma falha da natureza, e que falta! Aquela da luz. Há pouco que falar: ele, para a sua aldeia, é o substituto do sol. São dois os substitutos: ele e a lua; e revezam-se. Quando há lua, ele descansa. E toda a importância de sua profissão surge manifesta naquelas noites em que a lua deveria estar presente e não está.
Como é belo ver, de longe, no meio das trevas da noite, aqui e acolá, alguma aldeia iluminada!
Quaquéo vê diversas, todas as noites, quando chega aos últimos lampiões do alto do morro, e queda-se a contemplá-los longamente, com as mãos pendidas do braço do lampião e a cabeça apoiada a um ombro, e suspira.
Sim, aquelas pequenas luzes, lá embaixo, qual uma multidão de vaga-lumes em congresso, clareiam penosamente e permanecem a noite inteira a velar, no lúgubre silêncio, ruelas sujas e íngremes e tocas de miséria, talvez piores do que aquelas de sua aldeia; mas é certo que, de longe, produzem uma bela vista, e expandem um suave e melancólico conforto no meio de tanta treva. Passa de tanto em tanto alguma rajada de vento, e todas aquelas luzinhas, lá agrupadas, hesitam e parece que elas também suspiram.
E, ao vê-las assim longe, fazem-no pensa que os pobres homens, perdidos como se encontram pela Terra, entre as trevas, estão reunidos, aqui e acolá, para dar-se um mútuo conforto e auxílio entre si; ao invés, nada disso, não é assim: se uma casa surge em um lugar, outra não aparece ali perto qual uma boa irmã, mas ali se estabelece qual uma inimiga, pode tirar-lhe a vista e o respiro; e os homens não se reúnem aqui e ali para viverem em companhia, mas se acampam uns contra os outros para se guerrearem. Ah, ele, Quaquéo, conhece bem essas coisas! E dentro de cada casa há guerra, entre aqueles mesmos que deveriam amar-se, e estar de acordo para se defenderem dos demais. Não é talvez sua esposa sua mais acérrima inimiga?
E se Quaquéo bebe, bebe por isso; bebe para não pensar em certas coisas, que o faziam desleixar-se dessas obrigações, de que se acha tão profundamente compenetrado. Mas é verdade que, afinal, todos nós temos tantas outras que não desejaríamos ter. Não desejaríamos tê-las, mas temo-las.
– Eh, rato velho!
Quaquéo dirige-se a um morcego. Chama-o de rato velho, porque se trata de um rato que criou asas. Outras vezes, dirige-se a algum gato que desliza rente ao muro e pára de repente, encolhido e oblíquo, a mirá-lo, ou a algum cachorro vagabundo e melancólico, que se põe a segui-lo de um lampião a outro, pelos altos becos desertos, e se deita à frente, debaixo de cada lampião, esperando que o acenda.

Trecho do conto “Certas Obrigações“, de Luigi Pirandello (Odisséia Editorial, trad. de Jacob Penteado). O copiei aqui, palavra por palavra, porque me parece condizente com estas luzes que brilham lá fora, nesta época do ano; pela beleza da tradução e da imaginação de Pirandello; além disso, porque eu mesmo me sinto um pouco Quaquéo. E talvez, quem sabe, você também. Cada um por suas razões.

Feliz Natal.

Basta-lhes a vida.

– Excetuando o meu – perguntou ela -, já assististe a grandes amores?
– Em terra – respondeu Laurent, passados alguns momentos – assisti a alguns. É uma coisa muito triste de se ver.
– Referes-te – perguntou ela – a esses amores sobre os quais nada impede? Que nada, aparentemente, impede de durarem para sempre?
– Instalados na eternidade – completou Laurent -, é isso.
– A eternidade é muito – observei eu.
– Não é verdade que nada nos impressiona mais do que um grande amor? Que nada, em suma, se lhe assemelha?
– Os pequenos amores do dia-a-dia – observei eu – têm outras vantagens.
– E esses – concordou Laurent, rindo – não são tão tristes de ver.
– A esses basta-lhes a vida – comentei eu -, não saberiam que fazer da eternidade.
– Diga-me – pediu ela -, qual é o sinal anunciador do fim de um grande amor?
– O fato de nada o impedir, aparentemente, de durar para sempre, não é? – disse eu.

Marguerite Duras