Os Moinhos de Vento

 

As estórias são amargas. Não importa o grau de felicidade que caiba nelas. O protagonista sempre enfrenta um antagonista que faz da sua vida gato e sapato até que o narrador decida por um final feliz e politicamente correto e, convenhamos, por maior que seja a sua capacidade de criar reviravoltas, previsível. Você sabe que está diante de uma estória feliz e que neste cenário o bem deve triunfar. As histórias reais são amargas. Aliás, ainda mais amargas. Talvez seja por isso que precisamos tanto das estórias com finais felizes. É um modo de negarmos o óbvio: por mais que você se supere ou acredite fazer parte de uma geração de seres especiais, você não terá garantias especiais, nem privilégios especiais, seja lá o que isso signifique. Como acabamos por pensar assim, afinal? A vida continua exatamente onde sempre esteve! Bem diante das nossas caras! Quando meu pai faleceu eu levei um tiro. Um tiro certeiro bem no meio daquele lugar privilegiado que chamarei aqui de o pacote embrulhado com papel laminado e fitas coloridas onde estão guardadas as estórias e as histórias com finais felizes. O pacote saltou alto e rolou para bem longe. Um baita boom bem no meio da sua sórdida realidade criando uma cratera de algum bom senso. Sua história foi comum, mas não menos importante. De repente, depois de alguns anos sem um trabalho digno de menção, sua auto-estima virou um grãozinho de feijão que teimava em não virar uma plantinha. Meu pai fazia parte desta imensa massa de assalariados que já tem uma idade elevada e nenhum diploma pregado numa parede e que vive de oportunidades de trabalho informal. A aposentadoria não vinha. Os anos, alguns poucos, porém teimosos anos, simplesmente resistiam a somar a matemática de algum sossego. Aquele sossego dos finais felizes em que o herói volta para a sua Ítaca e senta-se no seu trono depois de uma longa jornada de aventuras carregadas de beleza irreal. Pensou na casa, o único bem. Vou vendê-la. Vou dar cabo desta aposentadoria de uma vez por todas. Passaram-se meses e quando o negócio finalmente havia sido acertado, uma inundação na cidade desfez o comércio. Meu pai não dormiu na primeira noite, nem nas trinta noites seguintes. Ficou na janela de sua arca esperando as águas amansarem uma revolta que ele não compreendia e a pomba da paz trazer de volta o ramo da esperança. Não conseguia comer e o coração que nunca fora forte, apesar do caráter, não resistiu. Teve um enfarto no meio da noite. A noite é feita destes mistérios em que adora sussurrar pesadelos enquanto todos sonhamos sonhos bons e sorrimos feito crianças amparadas pelo refúgio do quarto. Não tardou para estar sozinho em um hospital passando por exames e distante de todas aquelas pessoas que nos trazem algum conforto. Ninguém poderia entrar. Absolutamente ninguém. É nestes momentos que a câmera deveria dar um longo slow motion no olhar do meu pai. Nas coisas que via e naquelas que não conseguia enxergar. Nas memórias que corriam feito cavalos sob o espelho d’água da sua retina. No horror de não estar em casa, dormindo, dormindo e sonhando com finais felizes e pacotes reluzentes com fitas coloridas. Mas eu menti até aqui sobre toda esta história de finais infelizes. Escritores precisam de frases feitas e generalistas. É assim que criam suas verdades provisórias, aquelas que manterão a integridade das estórias que contam. Menti porque não consigo envolver a vida que é sonho com a vida que é o que ela sempre foi, uma caixa sem mistérios por guardar. No meio da noite, quando médicos e enfermeiros tiveram o seu momento de repouso naquilo que era para eles uma noite calma – afinal eles precisam destes intervalos, mesmo sabendo que os doentes jamais descansam – meu pai se ergueu da cama e pôs as próprias calças e os sapatos e abotoou a camisa e possivelmente fez tudo isso com uma certa calma de quem não consegue pensar muito além dos sapatos que precisam ser amarrados e do caminho a ser feito a seguir. Passou por um segurança ou dois do hospital, desceu rampas evitando elevadores, viu e ouviu coisas sem ver e sem ouvir, e procurou a porta de saída e chegando nela tirou do bolso o celular e ligou para o filho dizendo algo assim, “oi garoto, eu estou bem, recebi alta, está tudo bem, venha me buscar, está bem?”. É aqui que todos nos deparamos com a nossa real solidão. É nesta espera e nenhuma das outras que a vida nos obriga. No caminho até a casa, um caminho absurdamente curto, porque meu pai morava então próximo ao hospital regional que atende a cidade e arredores, no caminho até a casa ele teve mais três enfartos e um único pensamento, chegar até a cama de minha mãe. Fez isso se arrastando ao adentrar a estranha casa que ia se apagando aos pouquinhos apesar do esforço do filho, o corpo pesava demais, apesar da magreza e da idade. A casa que nunca o quis, aumentava distâncias, tornava objetos irreais em que não havia aonde se apoiar, mas havia a porta e o quarto aonde minha mãe fazia a vigília. Ao lado dela meu pai expirou. Tinha passado a noite anterior falando de quanto a amara e como foram felizes nos quarenta e quatro anos que passaram juntos. Enquanto ela o abraçava aos gritos com o filho, a nora e o neto de duas semanas ao lado da cama, meu pai deixava cair no chão o seu pacote de papel laminado e fitas coloridas. A sua história estava acabada. Era ela todinha feita de uma amargura bonita que por mais que a gente se esforce, não dá pra entender. Da cama do hospital até a cama ao lado de minha mãe, meu pai foi derrubando pelo caminho inúmeros gigantes na forma de moinhos de vento.

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Procura-se um emprego inusitado.

Procura-se um emprego inusitado. Não interessa o primeiro milhão, mas a bilionésima batida de um coração satisfeito com o único tempo que teve para pôr a venda. Se este tempo for digno daquilo que o melhor da humanidade pôs em mim, eu hei de ser o seu escravo liberto. A qualidade dos serviços prestados está em meus olhos e em minhas mãos. Pois nada mais são do que a exata medida dos extremos de um homem. É fácil saber reconhecê-lo, desde que o contratante saiba o que lhe enche os próprios olhos e com o que se ocupam as próprias mãos. O resto é facilmente negociável, por falta de palavra menos indigna, conforme os ditames do mundo como ele é. Para contato com este flanêur (não lhe soa bem a palavra?) usar a palavra-chave IMAGINAÇÃO. É dela que nasce uma nova sociedade e um novo mundo de relações e trocas sociais. Não escolhemos o que somos tanto quanto sonhamos, e além da função social do trabalho, menos importante, a meu ver, a vida parcialmente produtiva, é uma longa e aborrecida espera, citando um grande amigo livresco. Subverta você também as relações empregatícias. É porque você e eu as criamos que não dormimos bem a noite. O mundo não é feito de boas pessoas, mas de bons negócios? Os negócios não deveriam estar ao lado dos interesses da coletividade de modo a que todos nós criássemos uma sociedade mais justa e socialmente aceitável? Você deve estar pensando que eu tenho 15 anos, não é? Bom. Eu não tenho. E estou falando sério. E você sabe exatamente em que pontos a vida em si fala por mim – e penso eu, fala por você também. Interessados mandar carta escrita à mão e registrada para o endereço a ser observado nestas paragens. Mais e melhores boas pessoas trabalhando para você, digo, bons negócios!

Att.

Você sabe quem.

Velho pai.

Hoje é um dia triste. Entre todos nós o meu avô materno não mais existe. A maioria de vocês não o conheceram, nem a sua história, nem a sua visão de mundo, se é que a tinha, nem no que estava pensando ao abrir as janelas da antiga casa, coisa das mais importantes, quando se desperta. Eu sei que o meu avô materno, ao se despedir, abriu a sua janela e despertou para um outro lado da vida, seja este qual for. Não será mais de dor. Nem de olhos nos olhos.

Continuamos nós aqui, seja aqui onde for, por tempo que não se sabe, tentando ser melhores e enxergar tudo o que for possível pelo TEMPO que destes para cada um de teus filhos na forma de VIDA. Te agradeço por tudo velho pai. E apenas mais um abraço seria formidável, mas este lugar em que vivemos é dos mais caprichosos. Vai com Deus, conforme tua fé. Que a tristeza vire saudade e a saudade vire alegria.

A arte da negação.

we_are_a_negation_by_LuiNahtzi

“We are a negation”
Artista: LuiNahtzi

Eu não troco um bêbado por um sóbrio, mesmo que um sóbrio esteja bêbado, eu não troco um doido por um sujeito todo bem informadinho, atualizadinho e dentro da última modinha, eu não troco um doido, aliás, por nada nesta vida, eu não troco uma puta por uma moça de família cheia de fantasias tão de acordo com a última moda nos salões das velharias, eu não troco a selva africana pela tua estradinha cercada de flores amarelas, eu não troco a minha guimba de cigarro pelo teu gel no cabelo, nem a minha última peça de roupa amassada por esse teu sorriso besta, eu não troco a minha falta de vontade pela tua ambição, nem as minhas pernas frágeis pela tua academia, eu não troco o beijo de minha mãe doente por teus beijos dados na tua última baladinha, em dezenas de menininhas todas tão lascivas e afetadinhas, eu não troco a tua boça de machão pelo meu amor pelas mulheres, e eu não troco a minha ignorância pela tua esperteza e safadeza, nem meus dois únicos amigos pelas tuas duas ou três contas no orkut, facebook, o escambau, lotadas e vazias, eu não troco a minha falta de jeito, pela tua habilidade com futebol, basquetebol, sinuca, poker e jogo do palitinho, tudo aquilo que te faz esquecer que perder é o maior aprendizado que se pode ter e que perder de propósito é ainda mais interessante e alucinante, quando então a gente simplesmente para pra pensar e vê o quanto tudo pode ser tão besta e sem propósito, e eu não troco a minha raiva pela tua educação, polidez, diplomacia, nem a minha busca de sentido pela tua última teoria, eu não troco o futuro que eu não vou ter, pela tua casa própria, por tuas viagens, por teu guarda-roupa com a última coleção, datada, eu quero este instante, na forma como ele é, problemático, caótico, desastrado, sem planejamento nenhum, descuidado, deprimente, consciente, sensível, inesperado e indescritível, e não troco o desastre que foi minha educação por tua MBA na FGV, eu quero o meu idioma fora de toda cartilha, o meu pensamento fora de todo esquema, a minha curiosidade no cimo das árvores, longe dos homens, longe da cidade, e mais próxima do que for, desde que seja qualquer outra coisa, eu não troco estas mãos por tudo o que apenas elas tocaram, nem estes olhos pelo que não souberam enxergar, nem este coração envelhecido, nem as sobras do meu fígado, nem as sobras do meu prato, nem o meu prato que é de papel, e ainda menos a fome com que a vida me ensinou a arte da negação.

Amar é.

e se eu fizesse
todas as escolhas
erradas
ou a única escolha
certa
possível
tu ainda assim
me amarias?
e se eu partisse
e indo embora
a cada passo dado
para largar-me ao mundo
ainda mais que nunca
para longe de mim
e isso me fizesse algo de bom
algo de bem
algo que há tempos não sinto
tu ainda assim
me amarias?
e se a memória me levasse
e se a raiva me levasse
e se a saudade fosse tanta
e me levasse
para um canto incompreensível
das coisas que se sente
quando se está só
tu me amarias?
e se eu me conter
para dizer
novamente
que o amor é injusto
que a dor é injusta
que a história que contamos
é injusta
e o trabalho que nos ocupa
todo santo dia
é injusto
tu me amarias?
tu me amarias?
se eu me perdesse
se eu não me achasse
se eu não encontrasse saída
para o certo e o incerto em mim
se eu causasse o maior estrago
se eu fizesse o escândalo maior do mundo
se eu não pudesse mais parar por um único
segundo
tu me amarias?
e se eu fosse fraco?
e se eu fosse fútil?
e se eu não tivesse dinheiro nenhum?
nem empregos
nem a vontade de participar
do que fosse
e se eu fosse sujo
ríspido
roto
gasto
assustado
apavorado
amedrontado
e estivesse encolhendo
encolhido
por dentro
tudo isso
por dentro
tão diferente
do por fora
tu me amarias?
e se eu não achasse o caminho da volta?
e se eu não soubesse nada a respeito do que eu vejo no espelho?
e se eu nasci com a capacidade de jamais esquecer?
e se eu tiver vocação para me perder?
tu me amarias?
tu me amarias se
eu fosse tão velho quanto o tempo
ou infantil como a criança mais doce e ingênua
e se eu fosse apenas

humano

tu me amarias?
e se eu te amar para sempre
e te querer tão bem para sempre
e te desejar silenciosamente para sempre
e te enxergar
e te ver
e te perceber
e te notar
e te avistar
e tão simplesmente

nunca

mais

te

ter

tu me amarias?
tu me amarias
se eu deixar de existir
se eu deixar de perder as minhas coisas pelo caminho
se eu deixar de estar onde sempre estive
se eu deixar de ser qualquer coisa que se perceba
se eu deixar saudade nenhuma
tu me amarias?
tu me amarias pelas coisas que não pude ser
pelas que me cansaram
por aquelas que não pude compreender
pela raiva que senti
pela tristeza que senti
pela saudade que senti
e por ser como toda a gente deste mundo
inseguro
imprevisível
imaturo
tu me amarias?
tu me amarias se
eu te contasse que
toda a nossa vida em comum
cabe na palma de nossas mãos
e que ela haveria de voar um dia
para a liberdade de uma outra vida
só para não envelhecer?
tu me amarias?
tu me amarias
se as palavras me faltassem
se as palavras não me bastassem
se as palavras não estivessem mais
onde deveriam estar
ou se as palavras
juntas ou separadas
não significassem nada
desconexas
inexatas

não

tu não me amarias!

Capitão.

tem coisas que não é possível descrever
como o que se sente quando se deixa o lugar em que se viveu por tantos anos
ou um estado mórbido qualquer
há momentos em que se espera sem esperar nada
e isso não é algo simples de traduzir também
você pode se ocupar pelo tempo que for
na verdade não há nada como estar simplesmente
parado
enquanto tudo o que deveria acontecer no mundo à sua volta
não acontece
é como brincar de deus só que usando seus poderes
às avessas
em um tempo assim o tempo é em si outra coisa
e é como se seu coração se mantivesse congelado
enquanto todos os sentidos continuassem acumulando sensações
estar parado é deixar lugar nenhum
instante nenhum
é neste lugar que cada memória se apazigua
e nenhuma outra é capaz de se formar
é como não abandonar o navio
que afunda