Dois poemas

carta de alforria

já escrevi tantas cartas
de alforria!

não que tivesse sido genial
ou poderoso

mas porque
fui um homem livre

hoje contemplo
a minha grande casa branca

a minha grande casa branca
em ruínas

e sei que valeu a pena
ter resgatado tantos e tanta coisa
ao vazio e à solidão

valeu a pena
porque conquistei o meu direito
a ter medo

gil t. sousa
água forte
2005

…………………………………………………………………..

julgamos que a vida nos escapa e na realidade a vida é isso

Às vezes fico com a vista parada
─ por exemplo numa parede ─
durante um bom bocado. os olhos
deixam de ver por fora e o corpo
parece que não o sinto. Então
normalmente dou-me conta
(e não mo explico e espanto-me)
desta coisa estranha que é viver,
e faço-me perguntas que cortam
e o que sou concentra-se num ponto
e a única coisa que sinto é que eu
─ a voz que vive em mim e que me diz
isto e aquilo sem palavras ─
também serei menos um. Em breve.
Que tudo o que penso agora,
o que pensei e chegarei a pensar
há muito que não é nada.

juan miguel lópez
poesia espanhola, anos 90
organização e trad. de joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000

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