Oh pequeno coração diminuto, coração que quer pulsar para ser também o unânime coração que alcança!

 

És esplêndido, esplendidamente humilde, vivificador e profundo
sentir-se sob o sol, entre os demais, impelido,
levado, conduzido, misturado, rumorosamente arrastado.

Não é bom
deixar-se na margem
como o quebra-mar ou como o molusco que quer calcareamente imitar a rocha.
No entanto é puro e sereno arrasar-se no destino
de fluir e perder-se,
encontrando-se no movimento com que o grande coração dos homens palpita
estendido.

Como aquele que ali vive, ignoro em que piso,
e que vi descer pelas escadas,
e enfiar-se valentemente na multidão e perder-se.
A grande massa passava. Mas era reconhecível o diminuto coração afluído.
Ali, quem o reconheceria? Ali com esperança, com resolução ou com fé, com temeroso denodo,
com silenciosa humildade, ali ele também
transcorria.

Era uma grande praça aberta, e havia odor de existência.
Um odor de grande sol descoberto, de vento eriçando-o,
um grande vento que sobre as cabeças passava sua mão,
sua grande mão que roçava os rostos unidos e os reconfortava.

E era o serpear que se movia
como um único ser, não sei se desvalido, não sei se poderoso,
mas existente e perceptível, mas fecundador da terra.
Ali cada um pode se ver e pode se alegrar e pode se reconhecer.
Quando, na tarde escaldante, só em teu gabinete,
com os olhos estranhos e a interrogação nos lábios,
queres perguntar algo à tua imagem,
não te busques no espelho,
num extinto diálogo em que não te ouves,
Desça, desça devagar e busca-te entre os outros.
Ali estão todos, e tu entre eles.
Oh, desnuda-te, e funde-te, e reconhece-te.
Entra devagar, como banhista que, temeroso, com muito amor e receio da água,
enfia primeiro seus pés na espuma,
e sente a água subir, e já se atreve, e quase se decide.
E agora com a água na cintura todavia não confia.
Mas estende os braços, abre enfim os dois braços e se entrega completo.
E ali forte se reconhece, e cresce e se lança,
e avança e joga espumas, e salta e confia,
e bate e pula nas águas vivas, e canta, e é jovem.

Assim, entra com os pés nus. Entra no fervor, na praça.
Entra na torrente que te reclama e ali sê tu mesmo.
Oh pequeno coração diminuto, coração que quer pulsar
para ser também o unânime coração que alcança!

 

Vicente Aleixandre, “Na Praia”,  tradução de Salomão Sousa.

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