Desatenção.

É sempre difícil encontrar o momento inicial, o quê deflagrador de uma história cuja importância só será conhecida em um longínquo depois, já instalado no campo linear de nossas biografias. O quase nada dos primeiros movimentos é apenas sombra, sem volume ou extensão necessários para a estrutura mental fazer registro. Muito simples, nosso cérebro não consegue reconhecer os sinais sutis de uma pré-história, os elementos irônicos que maquinam futuros. Escapa-nos a faísca mínima que irá gerar o grande incêndio. Assim, toda primeira lembrança é peça de ficção, zero simulado, abstração inchada pela polpa da consciência que adensa até oferecer o fruto já formado. No instante curto entre nascimento e morte, experimentamos um máximo de desatenção.

Do conto Considerações sobre o Tempo, de Adriana Lunardi.

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