O irônico mor.

Uma possibilidade que não consideramos foi que Deus é o irônico mor. Assim como os cientistas fazem experiências em laboratórios com ratos, labirintos e pedaços de queijo colocados atrás da porta certa, Deus pode ter preparado o seu próprio experimento, usando-nos como ratos. Nossa tarefa é localizar a porta atrás da qual está escondida a vida eterna. Perto de uma das possíveis saídas, ouvimos uma música distante, etérea; perto de outra, um cheiro de incenso; raios dourados de luz brilham ao redor de uma terceira. Empurramos cada uma dessas portas, mas nenhuma delas cede. Com uma emergência cada vez maior – pois sabemos que a caixa em que nos encontramos se chama mortalidade -, tentamos fugir. Mas o que não compreendemos é que o objetivo do experimento é não escaparmos. Existem muitas portas falsas, mas nenhuma verdadeira porque não existe vida eterna. O jogo imaginado por Deus, o irônico, é este: incluir desejo de ser imortal numa reles criatura e depois observar as consequências.

Julian Barnes, no livro “Nada a Temer” (Rocco, pg. 194)

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