A vida salta de mosca em mosca.

Ligeira, súbita, uma Mosca se desprega da parede; faísca; não existe mais, e renasce na minha mão. Como a preguiça aumenta as minúsculas coisas próximas! Esse ponto vivo, ponto negro vivamente consumido, recriado, mudou de ponto de existência. És tu, Mosca, a mesma Mosca, a mesmíssima Mosca que existia? Quem juraria por tua identidade? Posso eu verdadeiramente pensar (mas pensar até à ponta de meu pensamento) que esse transporte, essa destruição de inseto que o sol dissolve, transmitiu uma essência sem cópia, um ser único, ínfimo certamente; mas que conta por si mesma na tábua instantânea dos vivos? Nela, o estranho dom de não ser um outro me maravilha. Mas quanto a mim, confesso-me que a confundo com qualquer mosca que vier. Pensar é mesmo isso…É confundir todas as moscas. Mas como te conservas? Como te separas, – em não sei qual minúscula alma, – da causa e dos efeitos de teu movimento? Quando voas, mosca, certamente não és senão voo; e quando pousas e rodopias, e picas, não és senão trocas minúsculas, sem passado, sem futuro, e como que infinitamente acidental. Ó, Mesma e Não Mesma, tu me engendras uma fatigante, uma insustentável presença de questões…A vida salta de mosca em mosca…

[…]

Excerto da letra L do “Alfabeto”, de Paul Valéry (Autêntica, pg. 43). Tradução de Tomaz Tadeu.

Anúncios

Um comentário sobre “A vida salta de mosca em mosca.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s