Podes cair, avião.

Sabes, minha vida tem sido um excesso permanente, uma espécie de avalanche a escorregar montanha abaixo. Não tem havido pecado que não me manche, vício que não me seduza. Tenho 36 anos agora e, às vezes (eu, que tenho terror de aviões), dou comigo, a bordo de um avião, quando aquela improvável invenção de metal começa a abanar como se tivesse acabado de descobrir a lei da gravidade, a pensar friamente: “Se esta merda cair agora, como é lógico que aconteça, é justo que assim seja: já vivi de mais, três vidas numa só, trezentos e sessenta anos em trinta e seis. Podes cair, avião: juro que não me vou queixar de ti”.

“No teu deserto”, de Miguel Sousa Tavares.

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