Os restos.

Esvazio-me dos nomes dos outros. Esvazio os meus bolsos.
Esvazio os meus sapatos e largo-os à beira do caminho.
À noite faço retroceder os relógios;
Abro o álbum de família e vejo como era em rapaz.

O que ganho com isto? As horas fizeram o seu trabalho.
Digo: o meu próprio nome. Digo: adeus.
As palavras seguem-se umas às outras seguindo o vento.
Amo a minha mulher mas mando-a embora.

Os meus pais deslocam-se dos seus tronos
para dentro dos quartos leitosos das nuvens. Como posso cantar?
O tempo diz-me o que sou. Mudo e sou o mesmo.
Esvazio-me da minha vida e a minha vida é o que me resta.

Poema de Mark Strand.

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2 comentários sobre “Os restos.

  1. Faz algum tempo procuro me “destruir” para me “reconstruir” com pessoas, ocupações, valores até, mas por mais que me esforce, tudo é sempre a vida, tudo volta a ela, nao dá pra se esvaziar das coisas, elas continuarão com vc pq são a sua propria historia, entende? No que este processo me ajudou? Eu vivo a quintessencia do relacionamento, da palavra, do momento presente, da vida como ela é. Está tudo absolutamente claro para mim. É tudo o que somos, restos: o que sobra do que se viveu, do que se vive, do que se aprende e se esquece, do que se sonha, do que se fantasia, das expectativas que construimos partindo e voltando para nós mesmos. Somos bichos feitos de sobras e o que sobra é a nossa mais autêntica verdade.

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