Das coisas visíveis.

eSVMwe222

Os meus ouvidos escutam cada vez menos as conversas, os meus
olhos enfraquecem, continuando porém insaciados.

Vejo as pernas delas de mini-saia, de calças,
ou de tecidos vaporosos,

Espreito cada uma, os seus rabos e coxas, pensativo,
embalado por sonhos porno.

Ó lascivo velho jarreta, estás com os pés para a cova
e não para os jogos e brincadeiras da juventude.

Mas não é verdade, faço apenas aquilo que sempre fiz,
compondo as cenas desta terra, movido pela
imaginação erótica.

Não desejo justamente estas criaturas, desejo tudo,
e elas são como um sinal de convívio extático.

Não tenho culpa de sermos feitos assim, metade de
contemplação

desinteressada e metade de apetite.

Se depois de morrer for para o Céu, lá, terá de ser como aqui,
apenas hei-de livrar-me dos sentidos entorpecidos
e dos ossos pesados.

Transformado em puro olhar, continuarei a absorver
as proporções
do corpo humano, a cor dos lírios, a rua parisiense
na madrugada de Junho.
Enfim, toda a inconcebível, a inconcebível pluralidade
das coisas visíveis.

Czeslaw Milosz, poema “Descrição honesta de mim próprio bebendo um whisky no aeroporto, digamos de Mineápolis”.

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