A minha própria natureza.

Tudo tão difícil,
doendo o corpo e a mente
e nada que se possa resolver
tão triste
um abraço que não acabe nunca
o calor do peito de quem se ama
e o bater do coração que não se estranha
e até mesmo os sons
vindos das entranhas
uma força que não se tem mais
e que vem do amor
de um modo inesperadamente novo
ser amado
pelo
ser amado
ainda que em meio ao mais absoluto desespero
este corpo meu
que já não entendo
e que tanto faz doer
o sentir
o pensar
o querer
depois de meses de drogas psiquiátricas
(ela me dizia, será para o teu bem)
depois de todos estes meses a solidão ficou
incrivelmente estranha
mas ainda há o que se fazer com ela
embora já não tenha o mesmo brilho de quando eu fora mais jovem
minha cabeça agora dói demais
chega a ser insuportável
e como faz frio
e como tudo o que já foi dito por mim foi
esquecido
empobrecido
perdido
exilado no tempo do nunca mais
como se simplesmente
nao fora sido
não me importo mais
o estilo já não me interessa
nem sistematizar algo ou
todos estes psicologismos que
me inojam
todos querem fugir de si mesmo por intermédio
da ocupação e dos outros
ou você jura amor a arte
ou amor à matéria
ou à carreira
ou à família
ou amor ao amor
mas ainda assim fica faltando e sobrando
porque não é exatamente você
(a primeira vez que ela me alucinou me fazendo quebrar o que eu jamais pensei ter um dia
ou a primeira vez que ela me deu com toda a sua falta de força um tapa no rosto
ou a primeira vez que ela me fez esperar para nunca mais voltar
ou a primeira vez que ela me disse que eu não passava de um louco
talvez ela tivesse alguma razão, afinal,
a loucura tem sido uma mestra sábia num tempo de razões tão relativas)
e quanto a todas estas pessoas em seus grupos eletivos?
e quanto aos modismos,
para onde iremos?
quem levaremos?
o que é preciso carregar consigo?
como foi mesmo que perdi meu próprio umbigo?
e quanto ao beijo roubado no meio da balada que não diz nada?
e como assim beijo que não diz nada?
ou esta impaciência a toda prova onde espera-se tudo
sempre
e o que se dá se supervaloriza como se
carregassemos algo que todos deveriam querer!
minha cabeça dói
eu nunca fui muito inteligente
não escrevendo
mas há momentos em que estar com alguém
me põe em contato com coisas minhas que
nem
eu
sabia
eu sinto falta de meu irmão
eu só tenho ele e as vezes ele me faz chorar
mas acontece que ele não sabe
e sei que meu pai foi algumas vezes durante o dia até o velho portão meio caido da casa pequena
cuja madeira fora pintada de azul e agora descasca criando texturas
que só existem naquela casa
meu pai vai até o velho portão para fumar o cigarro que nunca lhe falta
e para esperar a dor passar
(que nunca passa)
saudade de daniela com seu sorriso infantil e o olhar cheio de sono e fadiga
um olhar que se enxerga no escuro de tão claro
daniela que me ensinou o amor pelos meus tantos estranhos modos de amar
saudade de seus joelhos sempre tão perfeitamente juntinhos
e seus pés procurando todas as direções sem jamais poderem parar
eu me sinto triste de um modo que só eu posso ver estas direções
todas
saudades de suas mãos e do modo como seguravam meu rosto
e como choravam essas mãos
comigo
meu pai não ia assistir minhas competições nos jogos escolares
mesmo assim eu ganhava
eu ganhava e só eu sabia porque
e eu nunca contava pra ninguem
mesmo quando eu competi descalço porque tinha escolhido os calçados errados
e ainda assim cheguei em primeiro lugar com os pés doendo tanto
que eu mal ouvia o grito de vitória nas arquibancadas
eu corri a vida toda
e quanto mais caminhos percorri mais eu via o quanto a vida permanecia
exatamente a mesma
tem dias de sol, e chuva, calor, e frio
um dia ligam para você e pelas semanas seguintes
também
depois o telefone fica mudo
e eu penso que é porque o coração do outro lado da linha fica
mudo
e então passa um tempo
e outras pessoas ligam de outros lugares
e a casa se enche de vida
como se a casa já nao tivesse visto nada disso
em outras tantas ocasiões
amar mesmo é como se
começassemos a contar uma história que não tem fim
e que é contada por muitas personagens
(somos apenas uma das personagems do trama principal
ou incidental
ou apenas menor)
aonde o velho dramaturgo contador de histórias
morreu de falta de imaginação
mas continuamos nos movimentando porque é
afinal
tudo o que sabemos fazer
a minha garganta dói
meus dedos
meus nervos
minha insônia
e meu entendimento
e parece que a dor
é um modo necessário de perceber o mundo
para que cumpramos esta missão que é sofrer sem arremedo
como diz naquele poema do Cruz e Souza
Ri, coração, tristíssimo palhaço!
E o dito vale cada vez menos
e as horas que passamos juntos são
exatamente isso
horas que passamos juntos
e o riso
deixou de ser bonito
para ser feio de tão cínico e metido a sabido
e todo mundo imagina estar enganando todo mundo
fingindo saber coisas que todo mundo sabe que
ninguem poderia saber
e as pessoas que convivem com você
nem sempre percebem que você existe
se perceberam algum dia pelo que se vê
e todos são como tartarugas cada qual na sua carapaça
mas sem a leveza de um bicho que nasceu pra contemplar
o seu modo de passar por tudo
eu já passei por tudo
eu sei que você ri
não me importo
ou me importo só um pouquinho
afinal
você tem muito do que eu trago comigo
você sabe que nasceu, mas
não muito bem,
porque
e tem vivido a duras penas
coisas do amor
coisas do saber
coisas do querer
você sabe que vai partir um dia e
que não será exatamente uma viagem
bem no fundo você sabe
e por mais que diga que você está confiante
ou que está preparada
ou que não sente medo
você sente
a minha cabeça está doendo muito neste momento
e quando ela fica assim tudo o que eu mais quero nesta vida
é um pouco de colo pra ela e
silêncio
mas você não vê
nem ninguem mais
que o tempo que passa
tem feito de nós todos outra coisa qualquer
e a busca de sentido se perde na nossa absoluta incapacidade de conviver com o que deveriam ser
os nossos sentidos
faz frio
nesta semana eu vi um homem dormindo no frio com uma garrafa do seu lado
algumas pessoas ainda se espantam
outras acham graça
mas ninguém deita ao lado daquel homem
ou porque pareceria estupido embora eu nao saiba exatamente para quem
ou porque nós humanos nos diferenciamos pelos cheiros que supostamente temos e que lutamos
por esconder a real natureza
ou porque há compromissos que nascem para tornar os nossos sonhos desenganos
me perdoe se hoje estou um pouco azedo
embora tal palavra não diga nada a respeito do que eu sinto
acontece que há um tremor dentro de mim
e talvez eu tenha a sorte de nascer cadeias de dentro disso o que eu sinto
e talvez eu ainda tenha força suficiente para correr para o cimo dessas cadeias
recem-nascidas daquilo que desde tempos imemoriais
fermenta dentro de mim
eu nao quero nada do julgamento que vocês criaram para vocês mesmos
já me chamaram de vulgar
de bêbado
de mero reprodutor de modelos parentais
mas acontece que pensem o que pensar
no dia do juizo final
eu quero que me esqueçam e partam para toda a sua eternidade
e que ela seja inesgotável
em realidade
há muito o que ser feito
e já não posso mais suportar conviver com aqueles que
convivem apenas com seus próprios arremedos
de sonho
expectativas e
medos
ser esquecido em uma cadeia de montanhas
ter por onde caminhar apenas tendo o sol
e a lua e árvores de toda solidão
e chuvas e tempestades
e nuvens
e bichos de toda natureza
rastejantes, alados, peçonhentos, agourentos
para me encontrar em meio aquilo que deverá ser
a minha própria natureza

4 da manhã, embriagado e esgotado

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2 comentários sobre “A minha própria natureza.

  1. Eis uma gaivota, mais não a gaivota que passa a vida brigando por peixes, voa a no máximo 100 km por hora e anda em bando.
    Querendo parar de pensar, parar de pensar e voar na direção da luz em meio a escuridão. Gaivotas nunca voam no escuro, penso que se fosse pra voar no escuro teriam olhos de coruja, mapas no cérebro e asas curtas de falcão (mesmo que no meio do caminho percebe-se que algumas das respostas se encontram mesmo é nas assas curtas de falcão). É mais rápido que qualquer outra gaivota de qualquer outro lugar, jamais se limitando aos comuns 100 km por hora.
    Então é chamado diante do bando, para ouvir os piores e insustentáveis insultos, foi banido, banido do bando apenas por querer voar por onde ninguém ainda havia voado, explorar, conhecer cada canto do céu, aprender, para depois voltar e compartilhar com todas as gaivotas que não bateram as assas com ele. Sim banido. Então, desolado segue sozinho, enfrenta fortes chuvas, sol escaldante, e percebe que precisa parar pra descansar, mais neste momento sobrevoa um terreno coberto por neve, não importa, é preciso parar ali mesmo e de algum jeito encontrar alimento em meio a tamanho friu.
    “Para voar tão rápido quando o pensamento, a qualquer lugar que existe, que já existiu ou existirá, tem que começar sabendo que já chegou”. Mais sente medo. Ei, você não precisa de fé, não precisa de fé para voar, só precisa entender o que é voar, aprender algo sobre coisas que não se vê. Eis aí uma expressão perfeita de liberdade e vôo. Porque sentir medo? Não é um ritual, é real é real, eis uma idéia perfeita que funciona, funciona mesmo, para os que sabem o que estão fazendo. Onde esta seu pensamento seu corpo estará. Apenas pense no amor, e em algo que chega. Não importa o que dizem, voar é muito mais do que simplesmente bater as asas. Somos todos banidos, somos todos amigos, não a pressa, seu corpo todo da ponta de uma asa a outra não é nada a mais que seu próprio pensamento de uma forma que você pode ver, quebre as amarras do pensamento e quebrarás as amarras de seu corpo também.

    Pra isso… abraços apertados, mãos dadas sobre os corações, os passos entrelaçados, muita calma, sorrisos e lagrimas, caixinhas alcoólicas, música alta… e uma única vida.

    Meus Beijos.

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