Homens que encolhem.

Em cima de um barco um homem toma banho de sol. Subitamente uma cortina de espuma o submerge e o cobre de gotículas, deixando em sua pele uma sensação de agradável formigamento. Enxuga-se sem maiores preocupações. Pouco depois constata que perdeu alguns centímetros. Um médico consultado lhe faz exames completos, não encontra nenhuma anomalia e confessa não compreender o que aconteceu. O homem continua a diminuir a cada dia. As pessoas que o cercam crescem, sua mulher, que há pouco tempo lhe batia no ombro, ultrapasso-o em uma cabeça e logo abandona esse marido pequeno demais. Ele se enamora de uma anã de circo, com quem compartilha sua última paixão humana antes que ela, por sua vez, se torne giganta. Inexoravelmente ele diminui, chega ao tamanho de uma boneca, de um soldadinho de chumbo, até o momento em que se vê diante do seu próprio gato, um adorável gatinho transformado em tigre de olhos imensos que lhe estende uma pata de garras afiadas. Mais tarde, refugiado no porão da sua casa, ele deve enfrentar uma monstruosa aranha….

Nesse romance o escritor americano de ficção científica Richard Matheson ofereceu uma notável metáfora do indivíduo insignificante surpreendido por sua pequenez. Diante da imensidão do mundo, da multidão de seres, somos todos pigmeus esmagados pelo gigantismo das coisas, somos todos homens que encolhem. 

Pascal Bruckner,  A Tentação da Inocência, pg. 15, Rocco.

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