Se é que sou.

Me parece que nasci e vivi muito tempo e errei pelas cidades, as florestas e os desertos, e estive durante muito tempo à beira dos mares em lágrimas diante das ilhas e penínsulas onde vinham brilhar, à noite, as pequenas luzes amarelas e breves dos homens e toda a noite os grandes fogos brancos ou de cores vivas que vinham até as cavernas onde eu era feliz, deitado sobre a areia ao abrigo dos rochedos no perfume das algas e da rocha úmida ao som do vento das vagas me açoitando com espuma ou suspirando sobre a praia mal tocando os seixos do chão, não, feliz não, eu nunca fui isso, mas desejando que a noite não acabasse jamais e nem voltasse o dia que faz os homens dizerem, vamos, a vida passa, é preciso aproveitar. Aliás, pouco importa que eu tenha nascido ou não, que eu tenha vivido ou não, que eu esteja morto ou apenas moribundo, vou fazer do jeito que sempre fiz, na ignorância do que faço, de quem sou, donde estou, se é que sou.

Samuel Beckett, Malone Morre, Códex, pg. 67.

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