Idêntico.

 

Quando acordo de manhã, não é raro para mim, como para várias outras pessoas, passar alguns milésimos de segundo tateando em busca do meu eu. O despertador toca, e experimento um período de um minuto de desorientação no qual luto, normalmente com sucesso, para remontar os contornos de personalidade que foram dissolvidos pelo sono em suas relações familiares.

Talvez lutar não seja a palavra certa, pois há, com a notável excessão de uma versão radical dessa reconstrução diária (quando estou, por exemplo, viajando e já no terceiro quarto de hotel desconhecido da semana), pouco esforço consciente em torno do processo. É mais como a volta de uma mola à forma original, como se eu fosse um brinquedo de apertar com uma espécie de desejo involuntário de voltar à integridade de seus contornos originais.

Como consigo sair das profundezas do esquecimento e me encontrar renovado a cada manhã? Eu me lembro, antes de mais nada. De repente, tudo retorna: o estoque de experiências arquivadas, percepções recordadas e juízos habituais que formam a maior parte do monólogo interior que conheço como meu eu.

Suponha, por um instante, que esse processo comum de encontrar nossos eus de memória fossem, por alguma razão, interrompidos. E se, uma manhã, eu descobrisse que o mundo de minhas memórias não tornasse a se encaixar da maneira normal? Haveria algum sentido no qual eu continuaria a ser eu mesmo?

Ou suponha que, em vez de nosso repertório de memórias, a alteração matinal fosse, como aconteceu com o Gregor Samsa, de Kafka, corporal? Não sei bem o que pode acontecer depois, pois agora estou sozinho de uma forma que mal pode ser imaginada; Aonde posso ir? O que posso dizer? Quem posso chamar?

Portanto, a identidade pessoal se baseia (no mínimo) em dois critérios: a continuidade da memória e a integridade do corpo. Apesar de os filósofos terem, ao longo do tempo, tentado argumentar que um é mais importante que o outro, ou suficiente em si mesmo, parece que precisamos das duas linhas de continuidade para conseguir cumprir a tarefa simples de reconhecer nossos amigos, cumprimentar nossos conhecidos ou nos ver no espelho. A identidade pessoal fundamenta nossa existência individual e também estabelece as fundações da vida social e cultural.

Mark Kingwell, Aprendendo felicidade, Relume Dumará, 2006, pg. 143, ligeiramente adaptado.

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