Devaneio sobre o ser.

eu coleciono momentos de epifania, busco cada um deles nas nuvens para muito além de todos os porões do mundo, …vivo num estado de contemplação cada vez mais vertiginoso, mas não sinto medo…a cada dia que passa eu sinto menos o chão sob meus pés, mas não posso me lançar além, talvez eu nunca seja tão leve como naquele dia em que abri os olhos e vi o mundo pela primeira vez…eu sinto saudade de meu irmão…eu sinto falta do cheiro de minha mãe e do sorriso envergonhado de daniela…eu sinto muita falta de meu pai que é um homem pequenino com um dos maiores corações que eu já vi e é tão confuso e inocente…eu queria que minha irmãzinha me ouvisse melhor e tivesse os olhos ocupados nos meus olhos, e não na minha boca para decifrar o que eu to dizendo…eu queria tanta coisa que eu nem sei, talvez não seja tanto assim, talvez não há muito a ser feito…dizem que me afeto, que sou afetado…se ver o mundo com as desrazões da emoção é ser afetado, eu sou afetado de um modo muito convincente…já me chamaram de só mais um, já me chamaram de um só e eu segui meu caminho pelo mundo sem saber quantos fui, sou, serei…folheio livros como quem procura nas palavras alguma remota calmaria para o silêncio ensurdecedor que existe nos diálogos do mundo….eu tenho os olhos cansados e as mãos já não são mais tão fortes…mas ainda vejo longe e ainda posso fazer algo pelas coisas que acredito…eu ja chorei no silêncio e no escuro da garagem, trancado dentro de um carro por me sentir confuso e sozinho, eu já sorri por compreender algo tão perfeitamente e não me achar louco por saber que certas coisas são realmente bastante simples, mas é necessário que você esteja no lugar certo para vê-las, e há apenas um…as palavras já me socorreram, as palavras já me deixaram sozinho…não importa, sempre vai haver algo a ser dito, mesmo que tudo já tenha sido dito de um outro modo que não o meu próprio modo de expressar algo…e eu dependo do meu modo de expressar algo como dependo da minha alegria para viver…eu gostaria tanto de ser feliz, mas acontece que eu sou triste, como diz no poeminha…mas não é esta tristeza de quem esbarrou com um saudade inexplicável de um dia que viveu e que ficou perdido no passado, é tristeza de quem vive em constante estado de expectativa…ah, esta espera que acaba por nos matar!…eu quero tanto viver que até mesmo esta hora se me torna insuportável tamanho o peso da sua realidade em mim…eu não posso me explicar como paul valery ou como bernardo soares…talvez eu mesmo não saiba até onde tenho algo a dizer como samuel beckett…eu nao consigo me localizar mas eu sei que estou em algum lugar entre o meu passado e o meu futuro mas é como se eu não estivesse exatamente aqui…eu sei de pouquissimas coisas, por exemplo, o sol pode me cegar se eu ficar muito tempo olhando pra ele, eu nao posso ficar mais de um minuto trancando a respiração em baixo d’água, as pessoas quando mentem contam a história sempre do mesmo jeito e aquele brilho que elas têm no olhar se apaga por alguns instantes, a dor pode ser suportável desde que você esteja olhando para as nuvens, sempre elas, que passam, lá ao longe, como no poema em prosa de baudelaire…eu sei que essas coisas, tão poucas, não me ajudam a viver, mas impedem que eu saia do mundo tão inocente quanto cheguei e dão ao mundo o meu próprio feitio…tem gente que não dá tanta importância e não acredita em mistérios, mas eu acredito que há mistérios além de toda capacidade de se admirar…eu realmente estou empolgado com toda esta história de estar vivo…eu só não sei exatamente o que fazer com tanta beleza…

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6 comentários sobre “Devaneio sobre o ser.

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