E no entanto eu sinto…

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Se eu vier a tomar alguma parte no mundo será como pensador e desmoralizador. Eu serei obrigado a dizer a verdade, mas ela será horrível, crua e nua. Mas que sei eu, meu Deus!, já que não passo de mais um daqueles que estão sempre desgostosos na manhã do dia seguinte, um daqueles a quem o futuro não cessa de acenar, daqueles que sonham, ou melhor, devaneiam, rabugentos e empestados, sem nunca saber o que querem, entediados de si mesmos e tediosos…

Antigamente, eu pensava, meditava, escrevia, bem ou mal lançava ao papel a verve que trazia no coração; agora já não penso mais, não medito mais, escrevo ainda menos. A poesia foi embora talvez com tédio e me deixou. Pobre anjo, não voltará nunca mais!

E no entanto eu sinto, embora confusamente, alguma coisa agitar-se dentro de mim, creio que estou agora num momento transitório e bastante curioso para ver o que vai resultar de tudo isso, como é que eu vou sair disso.

Gustave Flaubert, Cartas Exemplares, p. 24 (Imago)

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