De meus desejos

Por certo quis beijar tudo o que encontrei de riso nos lábios; quis beber o que encontrei de sangue nas faces, de lágrimas nos olhos; e morder a polpa de todos os frutos que dos galhos se inclinaram para mim. Em cada albergue uma fome me saudava; diante de cada fonte uma sede me esperava – uma sede particular diante de cada uma; e almejara outras palavras para marcar meus outros desejos

de marcha, onde se abria uma estrada;
de repouso, onde me convidava a sombra;
de nado, à margem das águas profundas;
de amor ou de sono ao pé de cada leito.

Botei intrepidamente a mão em todas as coisas e acreditei ter direitos sobre cada objeto de meus desejos.

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André Gide (1869-1951), Os Frutos da Terra, Trad. de Sérgio Milliet, Nova Fronteira, 1982

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