A minha fachada

Toda a vida venho reclamando a prorrogação do prazo
para terminar a minha fachada.
Não querem atenderme. Nem sei mais o que alegar.
Terminar da noite para o dia, não posso.
Mas também é aborrecido ficar sempre atrás de andaimes
e caminhar para a morte antes de concluir-se a construção.
Ninguém se espantará se eu confessar que talvez
não termine nunca a minha fachada.
Tenho adotado diferentes modelos.
Mas logo me aborreço e passo para outro.
O que ma atrapalha bastante são as discussões a meu respeito.
Perde-se muito tempo nisso.
Às vezes quero intervir, mas não vela a pena,
pois quando discutem a minha fachada,
já utilizo outra muito diferente, oposta mesmo às anteriores.
Tudo resultado de eu não ter ainda fachada própria.
Afinal, eu me pergunto: quando terminarei a minha?
Ou melhor, quando cairá a que recomecei?
Pois as minhas fachadas caem todas…
Talvez porque costumo aproveitar em cada uma
o material das outras;
talvez porque não se possa manter no espaço em que as levanto.
Até que tudo se resolva,
vou tendo a fachada que me atribuem.
São assim várias e numerosas
as minhas fachadas.
Muitas vezes se voltam contra mim, tapam-me,
não me deixam quase respirar.
Outras vezes – isso é frequente – se despregam de mim
e vão erguer-se longe,
enquanto eu fico atrás me rindo.
Aí então, aproveito os momentos disponíveis para distrair-me.
Sinto-me livre e cresço mais.
E deixo os outros falarem mal da fachada anterior.
Tenho uma fachada na universidade,
outra nas rodas mundanas,
outra no quarto do meu bem.
Trabalho agora num tipo ideal de fachada.
Permeável, sonora e elástica.
Mutável, segundo o olhar de quem a contempla.
E a luz da paisagem para qual se abre.
Especialmente projetada para servir de aparência
a algum edifício invisível.
Insusceptível de ser reproduzida.
Mas não me peçam que a termine tão cedo. O material é fluido.
Vou trabalhando nela como posso, dia e noite.
Com certa demora, pois há sempre pequenos incidentes.
Por exemplo: meto um prego, ele perfura o Azul.
Tendo fixar um tijolo, ele cai no Vazio.
Mas não desanimo. Minha paciência é grande.
Vão ver depois que esplêndida fachada vai ser a minha.

Machado, Aníbal M. A arte de viver e outras artes.
Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 1994.

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