Palavra Aguda

A leitura e a escrita para viver melhor a vida. E no meio uma canção.


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Dois poemas

carta de alforria

já escrevi tantas cartas
de alforria!

não que tivesse sido genial
ou poderoso

mas porque
fui um homem livre

hoje contemplo
a minha grande casa branca

a minha grande casa branca
em ruínas

e sei que valeu a pena
ter resgatado tantos e tanta coisa
ao vazio e à solidão

valeu a pena
porque conquistei o meu direito
a ter medo

gil t. sousa
água forte
2005

…………………………………………………………………..

julgamos que a vida nos escapa e na realidade a vida é isso

Às vezes fico com a vista parada
─ por exemplo numa parede ─
durante um bom bocado. os olhos
deixam de ver por fora e o corpo
parece que não o sinto. Então
normalmente dou-me conta
(e não mo explico e espanto-me)
desta coisa estranha que é viver,
e faço-me perguntas que cortam
e o que sou concentra-se num ponto
e a única coisa que sinto é que eu
─ a voz que vive em mim e que me diz
isto e aquilo sem palavras ─
também serei menos um. Em breve.
Que tudo o que penso agora,
o que pensei e chegarei a pensar
há muito que não é nada.

juan miguel lópez
poesia espanhola, anos 90
organização e trad. de joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000


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Estrela

Escutai! Se as estrelas se acendem
será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando
a mão fibrosa.
Implora! Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!
Jura! Que não poderia mais suportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
“Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Não tens mais medo, hein?

“Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.

MAIAKÓVSKI  em tradução de E. Carrera Guerra


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De vulgari eloquentia.

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o “porquê”, o sim”,

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem se parar. Mesmo sem assunto.

Paulo Henriques Britto, do livro Macau


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Meditação.

Se minha cabeça toma jeito,
não fica do mesmo jeito. Do mundo mesmo,
quero pouca coisa. Hoje, penso,
quase nada.
E um virar e desvirar de coisas internas.
Quase uma santidade, se for.
Do que passou, do que foi,
das coisas que aconteceram comigo,
parece que está tudo resolvido,
concluído, terminado,
perdoado. Problema, mesmo,
acho que não resta nenhum. Só carinho.

Rubens Torres Filho


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Cecília.

 

………………………………

Quantas coisas pensei sublimes,
merecedoras de longas lágrimas !
Quais eram ?
As lágrimas recordo
e as pensativas planícies
por onde estenderam seus longos rios,
mas não levam nenhuma voz essas águas.
Tudo foi afogado e sepulto.
Maiores que as coisas choradas
eram as lágrimas que as choraram.
E sua imagem, de longe, é uma solidão sem mais nenhum sentido:
mapa falso que a nossa viagem abandona,
pois vamos sempre além de tudo, para mais longe.

Mapa falso
………………………………

Tanto que fazer !
Livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuvas,
e os mortos em redôma de cânfora.
( E uma canção tão bela ! )
Tanto que fazer !
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.

Humildade
………………………………

Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra!
Este coração que era de asas
de música e tempo de lágrimas.

Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.

Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!

Dizei por que assim me fizestes,
vós todos a quem amaria,
mas não amarei, pois sois estes
que assim me deixastes, amarga,
sem asas, sem música e lágrimas,

assombrada, triste e severa
e com meu coração de pedra!

Oh, quanto me pesa
ver meu próprio amor que se quebra!
O amor que era mais forte e voava
mais que qualquer seta!

Coração de Pedra
………………………………

Dos campos do relativo
Escapei.
Se perguntam como vivo,
Que direi?

De um salto firme e tremendo,
- Tão de além!
- Chega-se onde estou vivendo
Sem ninguém.

Gostava de estar contigo:
mas fugi.
Hoje, o que sonho, consigo
Já sem ti.

Verei, como sempre ama,
Que te vais.
Não se volta, não se chama
Nunca mais.

Os campos do Relativo
Serão teus.
Se perguntam como vivo?
- De adeus.

Canções
………………………………

Via-se morrer o amor
de braços abertos

Uma espuma azul andava
nas areias desertas

Nos galhos frescos das árvores,
recentemente cortadas,
Meninas todas de branco
se balançavam
O eco partia o barulho
de suas risadas

Via-se morrer o amor
de mãos estendidas

Uma lua sem memória
pelas águas transparentes
arrastava seus vestidos

Via-se morrer o amor
de solidões cercado

Via-se e tinha-se pena
sem se poder fazer nada…

E era uma tarde de lua
com o vento pelas estradas
esquecidas

E ao longe riam-se as crianças
No princípio do mundo
no reino da infância

Desenho leve
………………………………

O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Canção do Amor-Perfeito
………………………………

Não te importes. Não te importes…

Na verdade, tu vens como eu te queria inventar:
e de braço dado desceremos por entre pedras e flores.
Posso levar-te ao colo, também,
pois na verdade estás mais leve que uma criança.

- Tanta terra deixaste porém sobre o meu peito!
irás dizendo, sem queixa,
apenas como recordação.

E eu, como recordação, te direi:
- Pesaria tanto quanto o coração que tiveste,
o coração que herdei?

Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos?

E hoje era o teu dia de festa
Meu presente é buscar-te:
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar, outrora.
Com menos palavras, apenas.
Com o mesmo número de lágrimas.
Foi lição tua chorar pouco,
para sofrer mais.

Aprendi-a demasiadamente.
Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
De calor silencioso.
Todas as estátuas ardendo.
As folhas, sem um tremor.

Não tens fala, nem movimento nem corpo.
E eu te reconheço.

Ah, mas a mim, a mim.
Quem sabe se me poderás reconhecer!

8
………………………………

Ah, falta o silêncio que estava entre nós,
e olhava a tarde, também.

Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto.
Igual à face da Natureza:
evidente, e sem definição.

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.
Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido.
Agora, tenho medo que não visses
o que havia por detrás dele.

Aqui está meu rosto verdadeiro,
defronte do crepúsculo que não alcançaste.
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.

7
………………………………

Para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
Para onde iriam, quando me escutavas?
E quando me escutaste? – Nunca.

Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!
Eu e tu perdemos tudo.
Suplicávamos o infinito.
Só nos deram o mundo.

De um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
E hoje, que barca te socorre?
Que deus te abraça? Com que deus lutas?

Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,
com as minhas perguntas.
Para quê? Para quê? Rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.

Monólogo
………………………………

O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo – e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce…
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
E alguém mata os personagens.)

Explicação
………………………………

Na quermesse da miséria,
fiz tudo o que não devia:
se os outros se riam, ficava séria;
se ficavam sérios, me ria.

(Talvez o mundo nascesse certo;
mas depois ficou errado.
Nem longe nem perto se encontra o culpado!)

De tanto querer ser boa,
misturei o céu com a terra,
e por uma coisa à toa
levei meus anjos à guerra.

Aos mudos de nascimento
fui perguntar minha sorte.
E dei minha vida, momento a momento,
por coisas da morte.

Pus caleidoscópio de estrêlas,
entre cegos de ambas as vistas.
Geometrias imprevistas,
quem se inclinou para vê-las?

(Talvez o mundo nascesse certo;
mas evadiu-se o culpado.
Deixo meu coração – aberto,
à porta do céu – fechado.)

Confissão


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Sua melhor arte.

Há suficiente traição, ódio, violência,
Absurdos no ser humano mediano
Para abastecer qualquer
exército em qualquer dia
E os melhores em matar
são aqueles que pregam contra
E os melhores em odiar
são aqueles que pregam o amor
E os melhores na guerra – finalmente -
são aqueles que pregam a paz
Cuidado com o homem mediano, a
mulher mediana, cuidado com o amor deles
Esse amor é mediano, procuram o mediano,
mas há genialidade em seu ódio
Há suficiente genialidade em seu
ódio para matá-lo, para matar qualquer um.
Não querendo a solidão
Não entendendo a solidão
Tentarão destruir qualquer coisa
que seja diferente de si mesmos
Não sendo capazes de criar arte,
eles não entenderão a arte
Considerarão as próprias falhas, como criadores,
Apenas como uma falha do mundo
Não sendo capazes de amar plenamente,
acreditarão
que seu amor é incompleto e então te odiarão
E seu ódio será perfeito como um brilhante diamante,
como uma faca, como uma montanha, como um tigre, como cicuta.
Sua melhor arte

Charles Bukowski

Adoro essa imagem com Linda…


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Se nega a dizer não.

Há uma solidão neste mundo tão grande
que você pode ver em câmera lenta,
nas mãos de um relógio
Pessoas tão cansadas, mutiladas por amor,
ou pelo não amor.
As pessoas não são boas com as outras
Os ricos não são bons com outros ricos
E os pobres não são bons com outros pobres
Nós estamos com medo.
Nosso sistema educacional nos mostra que todos
nós podemos ser malditos vencedores.
Não nos foi dito sobre os
marginais ou os suicidas
Ou o terror de uma pessoa
que agoniza sozinha.
Mais odiadores que amantes
As pessoas não são boas umas com as outras
Talvez se elas fossem, nossas
mortes não seriam tão tristes
Deve haver um jeito que
nós ainda não pensamos
Quem colocou esse cérebro em mim?
Ele chora, exige
Diz que há chance
Se nega a dizer não

Charles Bukowski

Você tem sido um bom amigo, Buk. Obrigado.


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E você?

Há um pássaro azul no meu coração que
quer sair, mas estou muito duro com ele.
Eu disse: “Fique aí, não vou deixar ninguém ver você”.
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair, mas eu derramei uísque nele…
e inalei fumaça de cigarro.
E as putas, e os garçons, e os balconistas da mercearia
nunca saberão que ele está lá.
Há um pássaro azul no meu
coração que quer sair…
mas estou muito duro com ele.
Eu digo: “Fique aí embaixo”.
“Você quer me ferrar?”
Há um pássaro azul no meu
coração que quer sair…
mas sou muito esperto
Eu só deixo-o sair à noite, às vezes,
quando todos estão dormindo.
Eu falo: “Eu sei que você está aí,
não fique triste”.
Então eu coloco-o de volta,
mas ele canta pouco lá.
Eu não o deixo morrer.
E nós dormimos juntos, como
se fosse nosso pacto secreto.
E é bom o suficiente para fazer um homem chorar,
mas eu não choro.
E você?

Charles Bukowski


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Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado.

Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado
No entanto eu sou maior…Eu sinto uma grandeza infatigável!
Eu sou maior que os vermes e todos os animais.
E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,
Maior…Maior que a multidão do rio acorrentado,
Maior que a estrela, maior que os adjetivos,
Sou homem! vencedor das mortes, bem-nascido além dos dias,
Transfigurado além das profecias!

Mário de Andrade


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Oh pequeno coração diminuto, coração que quer pulsar para ser também o unânime coração que alcança!

 

És esplêndido, esplendidamente humilde, vivificador e profundo
sentir-se sob o sol, entre os demais, impelido,
levado, conduzido, misturado, rumorosamente arrastado.

Não é bom
deixar-se na margem
como o quebra-mar ou como o molusco que quer calcareamente imitar a rocha.
No entanto é puro e sereno arrasar-se no destino
de fluir e perder-se,
encontrando-se no movimento com que o grande coração dos homens palpita
estendido.

Como aquele que ali vive, ignoro em que piso,
e que vi descer pelas escadas,
e enfiar-se valentemente na multidão e perder-se.
A grande massa passava. Mas era reconhecível o diminuto coração afluído.
Ali, quem o reconheceria? Ali com esperança, com resolução ou com fé, com temeroso denodo,
com silenciosa humildade, ali ele também
transcorria.

Era uma grande praça aberta, e havia odor de existência.
Um odor de grande sol descoberto, de vento eriçando-o,
um grande vento que sobre as cabeças passava sua mão,
sua grande mão que roçava os rostos unidos e os reconfortava.

E era o serpear que se movia
como um único ser, não sei se desvalido, não sei se poderoso,
mas existente e perceptível, mas fecundador da terra.
Ali cada um pode se ver e pode se alegrar e pode se reconhecer.
Quando, na tarde escaldante, só em teu gabinete,
com os olhos estranhos e a interrogação nos lábios,
queres perguntar algo à tua imagem,
não te busques no espelho,
num extinto diálogo em que não te ouves,
Desça, desça devagar e busca-te entre os outros.
Ali estão todos, e tu entre eles.
Oh, desnuda-te, e funde-te, e reconhece-te.
Entra devagar, como banhista que, temeroso, com muito amor e receio da água,
enfia primeiro seus pés na espuma,
e sente a água subir, e já se atreve, e quase se decide.
E agora com a água na cintura todavia não confia.
Mas estende os braços, abre enfim os dois braços e se entrega completo.
E ali forte se reconhece, e cresce e se lança,
e avança e joga espumas, e salta e confia,
e bate e pula nas águas vivas, e canta, e é jovem.

Assim, entra com os pés nus. Entra no fervor, na praça.
Entra na torrente que te reclama e ali sê tu mesmo.
Oh pequeno coração diminuto, coração que quer pulsar
para ser também o unânime coração que alcança!

 

Vicente Aleixandre, “Na Praia”,  tradução de Salomão Sousa.


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Que fique claro.

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

Clarice Lispector,
Quero escrever o borrão vermelho de sangue,
grifos meus.


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defender a alegria como uma certeza.

Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos

defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre

defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria

Mario Benedetti, Lugares mal situados


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e o meu peito adormece.

entra tão pouca luz no quarto,
o ocre antigo das paredes desliza pelo chão
e despe-se nas minhas pernas,

não sei se o sol nasce ou morre,
no meu corpo indecifrável
o mundo parte devagar

e os sons para trás acomodam-se no meu ouvido
como finos vapores húmidos,
sem dia, sem noite, apenas as horas ficam,

e o meu peito adormece.

Alma Kodiak

Do ótimo O Hálito Azul da Tarde, de Ana Isabel.

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