E há sempre uma câmara secreta no subterrâneo da linguagem que se desvenda. E o segredo é dos que buscam. - Carlos Nejar
A primeira palavra, a maldita primeira palavra e depois, que suplício, a frase, uma frase inteirinha, carregada de sinceridade, força, originalidade, algo a ser dito que, talvez, dependa a vida de algumas pessoas e que se faça clarão diante de suas ruínas. Mas nada. Só restam as ruínas do escritor que se denuncia no falso papel. Diante da máquina de escrever, estas mãos e esta alma e toda a expectativa do mundo para que o que vier seja digno do amor da humanidade – porque os homens do mundo esperam ser salvos pela inventividade sonhadora do artista, é certo? Ao menos, quem sabe, um quarto de hora de seus dias! Ao menos para aqueles que raramente ainda se encantam com o mundo? E eu, que encontro dificuldades para amar a imagem no espelho, a falta de cabelos, os cães da casa ao lado que, a esta hora da noite, latem sem parar até a total desatenção do homem sentado diante da máquina de escrever carregada de fantasias e fantasmas, e até mesmo a mulher que dorme no quarto de cima, e também sonha, ficando eu, no debaixo, sempre sozinho, sem uma única palavra sobre como anda o meu trabalho, sobre o que está acontecendo com o meu trabalho, “venda os livros, ela diz, o importante é vender os livros”, e meus filhos que partiram deixando-me com a falta neste espaço que sobra e que salta por portas e janelas e me sufoca, porque eu insisto em procurar algo que produza um novo significado para salvar, quem sabe, a minha alma, ao menos, já que estou, convenhamos, desesperado? Há ainda alguém no mundo que realmente acredite em salvação? Qual o papel do artista? Embelezar o que é feio? Isso não seria mentir? Blefar? Fazer falso comércio? O seu papel seria denunciar? Talvez criar perspectivas inéditas diante da imaginação que falta! Quem sabe renovar o velho? Reinventar a vida? Como assim, reinventar a vida? Há algo cujo nascimento jamais tenho sido inventado? Quem sabe para criar tendências revolucionárias! Quem sabe fazer o que for possível para ajudar o pobre homem que carrega o tédio cotidiano com o incentivo da evasão? Talvez eu é que esteja me evadindo do mundo. Ah, eu não dou conta desta folha indiferente que insiste em fazer de conta que eu não estou exatamente aqui, diante dela, e isso há horas! Atrasado, este livro que toma o meu tempo que resta, sem ceder a esta minha sensibilidade, os personagens que não se entendem comigo e que me viram as costas, em silêncio, esta voz narrativa que se tornou melancólica e neurótica a tal ponto que precisa urgentemente de análise, a trama que me prendeu e logo trará a aranha-mãe para devorar esta cabeça sem utilidades realmente significativas. Ah, ofício! Mas eu não desisto. Eu sei que tem alguma coisa aqui, algo que quer sair e precisa de ajuda, a ajuda certa, aquela que transforma ferro em ouro, por isso este tempo todo, trancado neste quarto, o estômago roído pela fome, as costas rebentando sob o peso da cadeira. Eu sei que tem algo aqui e eu vim buscá-lo, como um peregrino segue o seu caminho místico em busca da iluminação. Eu sei que há algo aqui que se esconde como numa brincadeira em que só saí vencedor quem for descoberto por último. Eis o mistério. E eu, que não sou dado a jogos, vou abrindo portas, seguindo por ruas em que não fui criado, espiando por fechaduras e entre frestas de janelas. Eu resolvi aceitar o jogo e uma hora eu sei que vai acontecer o inesperado, eu hei de surpreender a beleza sorrindo a sua franca sabedoria, por misericórdia, dela, e por teimosia, minha. E o livro terá começado.
Por Alexandre Magno da Silva
